Extraído de History of the Reformation in the Low-Countries de Gerard Brandt
(Publicado por The Arminian Magazine em 1778 e por The Methodist Magazine em 1827, N.10, V.10)
Tradução: Samuel Paulo Coutinho

As disputas sobre a predestinação surgiram nos Países Baixos por volta de 1580. Elas foram crescendo até o ano de 1603, quando Armínio tornou-se professor de divindade em Leyden. Depois de sua morte em 1609, as disputas se intensificaram. No ano seguinte, os favoráveis a Armínio, que temiam ser oprimidos pelos calvinistas, apresentaram um protesto (remonstrance) aos estados da Holanda. Por causa disso eles ficaram conhecidos como remonstrantes.

As doutrinas às quais eles se opunham eram: “I. Deus ordenou por um decreto eterno e imutável que certos homens (a despeito de suas obras) seriam salvos, e que outros, cujo número é muito maior, seriam condenados a despeito de fé e obras. II. Ou então, Deus, considerando a humanidade caída em Adão, pela sua misericórdia, decretou salvar certos homens e deixar os demais ao seu curso, como grande exemplo de sua justiça, a despeito da fé ou incredulidade deles. Para este fim Deus usa certos meios, em virtude dos quais os eleitos são necessariamente salvos e os réprobos necessariamente condenados. III. Consequentemente Cristo, o salvador do mundo, não morreu por todos os homens, mas apenas pelos eleitos. IV. Segue-se que o Espírito de Deus e Cristo operam sobre os eleitos com uma força irresistível, para fazê-los crer, e salvá-los; e que a graça necessária e suficiente não é dada aos réprobos. V. Aqueles que uma vez receberam a verdadeira fé, nunca podem perdê-la completamente, independente de quão grandes seus pecados possam ser.”

E as doutrinas deles eram: “I. Que Deus, por um decreto eterno e imutável em Cristo antes da fundação do mundo, determinou eleger, da raça caída e pecadora, para a vida eterna, aqueles que, através de Sua graça, creem em Jesus Cristo e perseveram na fé e obediência; e, ao contrário, resolveu rejeitar os não convertidos e os descrentes para a condenação eterna. II. Que, em consequência disto, Cristo, o Salvador do mundo, morreu por todo e cada homem, de modo que Ele obteve, pela morte na cruz, reconciliação e perdão pelo pecado por todos os homens; de tal maneira, porém, que ninguém senão os fiéis verdadeiramente desfrutam dos mesmos. III. Que o homem não pode obter a fé salvadora de si mesmo ou pela força de seu próprio livre-arbítrio, mas se encontra carente da graça de Deus, através de Cristo, para ser renovado no pensamento e na vontade. IV. Que esta graça foi a causa do início, desenvolvimento e conclusão da salvação do homem; de forma que ninguém pode crer nem perseverar na fé sem esta graça cooperante, e consequentemente que todas as boas obras devem ser atribuídas à graça de Deus em Cristo. Quanto ao modo de operação desta graça, no entanto, não é irresistível. V. Que os verdadeiros crentes têm força suficiente através da graça divina para lutar contra Satanás, o pecado, o mundo, sua própria carne, e obter vitória sobre eles; mas se por negligência eles não podem apostatar da verdadeira fé, perder a alegria de uma boa consciência e ser privado da graça necessária, deve ser mais plenamente investigado de acordo com a Sagrada Escritura. [Entretanto, quanto ao artigo quinto, os remonstrantes posteriormente declararam positivamente que: “mas os verdadeiros crentes podem cair por seus próprios erros, perder a fé completamente e definitivamente”][1].

No ano de 1611 muitas conferências ocorreram em Haia sobre esses tópicos, entre seis ministros calvinistas e seis do outro partido: mas não obtiveram o resultado esperado. Os Estados da Holanda tendo ouvido ambas as partes, exortou-as à tolerância mútua.

No começo dessas conferências, os seis ministros calvinistas apresentaram aos estados um protesto contrário àquele apresentado pelos seus adversários no ano anterior. Desde então, os calvinistas foram chamados de contra-remonstrantes, mas mais frequentemente de reformados.

Em 1613, Daniel Tilenus, um célebre professor de divindade na academia de Sedan, que havia escrito contra a doutrina de Arminius, mudou sua mente e abraçou as opiniões dos remonstrantes.

Em 1617, o rei da Grã-Bretanha exortou os Estados Gerais das Províncias Unidas a convocar um sínodo nacional, a fim de definir a disputa entre reformados e remonstrantes. Esse conselho foi reforçado pelas províncias da Zelândia, Gueldres, Frísia, Groningen, Ommelandes e Overijssel. E ele foi aprovado na assembleia dos Estados Gerais pelos delegados da Zelândia, Frísia, Groningen, Ommelandes, e pela maior parte dos de Gueldres, não obstante à oposição da Holanda, Utrecht e Overijssel. Não muito tempo depois, em 20 de novembro, acordou-se que o sínodo deveria se reunir em Dort. Acordou-se também que ele deveria consistir de vinte e seis ministros das Províncias Unidas, vinte e oito ministros estrangeiros, cinco professores de teologia, e dezesseis leigos.

ANO DE 1618

Dr. George Carleton, bispo de Landaff, e os outros ministros ingleses, tendo chegado em Haia, foram apresentados em 5 de novembro à assembleia dos estados pelo embaixador inglês, e foram recebidos com grandes sinais de distinção. Os outros clérigos ingleses foram Joseph Hall, decano de Worcester; John Davenant, professor de divindade e mestre do Queen’s College em Cambridge; Samuel Ward, arquidiácono de Taunton, reitor do Sidney College em Cambridge. Algum tempo depois, Walter Balcanqual, um teólogo escocês, juntou-se a eles a fim de representar as igrejas de seus país. O rei James agiu somente na esfera de estado, e mostrou-se mais como inimigo dos indivíduos remonstrantes do que da doutrina deles. O mesmo pode ser dito sobre o príncipe de Orange.

Em 10 de novembro os teólogos de Genebra chegaram à assembleia.

13 DE NOVEMBRO. Ocorre a primeira reunião do sínodo. Balthazar Lydius, ministro de Dort, discursou pela manhã, e Jeremy de Pours, ministro da igreja valônia de Middleburg, discursou à tarde: ele suplicou a benção de Deus sobre o sínodo. Depois disso, os comissários dos estados, os professores de divindade, os ministros e anciãos enviados para o sínodo tomaram seus lugares conforme indicado pela assembleia. Todos os teólogos estrangeiros foram recebidos por dois comissários dos estados. Os comissários tomaram lugar à direita. Os teólogos ingleses sentaram na esquerda. A terceira indicação de assentos foi para os representantes do Palatinado; a quarta para os de Hesse; a quinta para os suíços; a sexta para os de Genebra; a sétima para os de Bremen; e a oitava para os de Emden. Os delegados de Nassau e Watterávia não haviam chegado ainda. Os professores de divindade assentaram-se próximos aos comissários e, em seguida, os ministros e anciãos nacionais tomaram assento de acordo com a ordem das províncias. Os das igrejas valônias sentaram-se nos últimos lugares. Eu já nomeei os teólogos ingleses. Os do Palatinado foram Abraham Scultet, Paul Tossanus e Henry Altingius. De Hesse, George Cruciger, Paul Steinius, Daniel Angelocrator e Rodolphus Goclenius. Da suíça, John Jacob Brey lingerus, Marc Rutincijerus, Sebastian Bechius, Wolfgang Mayer e John Conrad Cocchius. De Genebra, John Diodati e Theodore Tronchin. De Bremen, Matthias Martinius, Henry lsselburgius e Lewis Crocius. De Emden, Daniel Bernard Eilshemius e Ritsius Lucas Grimerhemius. Os teólogos da Wetterávia, que tomaram lugar entre os da Suíça e Genebra, foram John Henry Alstedius e John Bisterfeld. Os professores de teologia de Leyden, Groningen, Harderwick e Middleburg, foram John Polyander, Francis Gomarus, Antony Thysius e Antony Walaius. O professor em Franneker, Sibrand Lubbert, chegou posteriormente. Os clérigos das Províncias Unidas apareceram em um número superior àquele que os Estados Gerais haviam ordenado; pois, ao lado dos cinco professores, havia trinta e seis ministros e vinte anciãos; sem contar dois ministros remonstrantes da província de Utrecht e um ancião do mesmo partido. Os clérigos ingleses foram precisamente vinte e oito; de forma que, os ministros das Províncias Unidas, sendo superiores em número, podiam conduzir qualquer coisa.

Quando os membros da assembleia tomaram lugar, Balthazar Lydius fez uma oração em latim; afinal, era necessário usar esse idioma devido aos estrangeiros. Concluída a oração, a mesma pessoa saudou os comissários dos estados e os clérigos estrangeiros. Depois, Martin Gregorius, primeiro conselheiro do conselho de Gelderland, saudou o sínodo. Ele foi, naquele dia, o presidente dos comissários num primeiro momento. Ele indicou Daniel Heinsius para ser seu secretário; mas isso decepcionou muito os remonstrantes, os quais alegaram que Daniel Heinsius tinha uma predisposição contrária a eles e tinha pouca habilidade em questões teológicas. Eles também protestaram contra a escolha dos comissários afirmando que a maioria deles eram seus inimigos, que dificilmente possuíam qualquer conhecimento de teologia e que alguns deles não entendiam latim.

14 DE NOVEMBRO. O presidente do sínodo, dois assistentes, e dois secretários foram nomeados. O presidente foi John Bogerman, ministro de Leuwarden. Seus assistentes foram Jacob Roland, ministro em Amsterdã e Herman Faukelius, ministro de Middleburg. Os secretários foram Sebastian Damman, ministro de Zutphen e Festus Hommius, ministro de Leyden. A eleição foi feita pelos clérigos das Províncias Unidas. Os remonstrantes ficaram muito descontentes com isso, pois eles viam aqueles cinco clérigos eleitos como seus inimigos professos, especialmente Bogerman, que afirmava que hereges deviam ser levados à morte.

Naquele mesmo dia, muitas cartas credenciais foram lidas durante a seção. Os enviados de Genebra produziram sua comissão, escrita em nome dos ministros de suas igrejas e dos professores de sua academia.

15 DE NOVEMBRO. Foi debatido de que forma os remonstrantes deveriam ser chamados para o sínodo, e declarou-se que seria suficiente convocar alguns remonstrantes para comparecerem dentro de poucos dias.

16 DE NOVEMBRO. As cartas de convocação foram lidas e aprovadas. Os representantes remonstrantes de Utrecht, que tinham lugar no sínodo, tendo observado que Episcopius estava na lista de pessoas citadas, disseram que ele deveria se apresentar como um membro do sínodo, visto que ele havia sido chamado para isso pelos Estados da Holanda; e que, consequentemente, ele não deveria ser intimado como uma das partes. O moderador respondeu que os comissários acharam mais adequado convocá-lo, e os advertiu a não questionar a decisão.

No mesmo dia, três representantes do partido dos remonstrantes, acompanhados por Episcopius, chegaram em Dort. Eles solicitaram aos comissários dos estados que fosse permitido aos remonstrantes enviar para o sínodo certo número de pessoas, os quais eles mesmos escolheriam, para defender sua causa. Os comissários responderam que o sínodo havia resolvido intimar Episcopius e alguns outros remonstrantes. Os três remonstrantes responderam que não era razoável intimar clérigos que desejavam comparecer por sua própria vontade. Por último, eles solicitaram que a intimação fosse dirigida ao completo grupo de remonstrantes, para que eles pudessem enviar as pessoas que eles entendiam como sendo as mais qualificadas para defender sua causa. Assim como a primeira solicitação, esse pedido não foi atendido. Os remonstrantes objetaram que eles estavam sendo citados como criminosos diante de um sínodo composto por seus inimigos; e que o sínodo pretendia julgar a doutrina deles sem debater com clérigos da escolha deles. O sínodo manteve que os remonstrantes haviam outrora batido na porta errada, ao reivindicarem aos Estados da Holanda; e que já era a hora deles se apresentarem diante do supremo tribunal eclesiástico das Províncias Unidas. Eles então nomearam aqueles três representantes, Episcopius e alguns outros ministros remonstrantes e os convocaram a comparecerem perante o sínodo dentro de quinze dias.

19 DE NOVEMBRO. Na sexta seção, o sínodo propôs ter a bíblia traduzida para o Holandês.

20 DE NOVEMBRO. Os representantes da Grã-Bretanha explicaram ao sínodo quais as regras o Rei James havia prescrito para publicar uma nova edição da bíblia em inglês.

No mesmo dia, durante a seção, foi resolvido pela maioria dos membros que uma nova tradução da bíblia deveria ser feita, mas a fim de evitar escândalos, os quais poderiam surgir no caso de alterações significativas, a antiga tradução deveria ser preservada tanto quanto possível.

21 E 22 DE NOVEMBRO. Nessas seções foi debatido se os livros apócrifos deveriam ser traduzidos, e adicionados aos livros canônicos. Foi acordado que eles deveriam ser adicionados ao final da bíblia.

23 DE NOVEMBRO. A assembleia discutiu se os tradutores deveriam ficar confinados por certo tempo. Ficou decidido que não.

No mesmo dia, o capelão do embaixador inglês, chegou em Dort, a fim de acompanhar o que acontecia no sínodo e reportar ao embaixador.

Houve um grande debate sobre qual a melhor palavra para se usar ao orar a Deus, tu (thou) ou você (you)? A palavra tu foi igualmente mantida, mas no final a maioria dos votos foi pela palavra você.

26 DE NOVEMBRO. Os tradutores foram indicados pelo sínodo.

27 DE NOVEMBRO. A assembleia levou em consideração a maneira de catequização. O último sínodo nacional havia determinado que os ministros expusessem o Catecismo de Heidelberg em seus sermões vespertinos. Esse decreto não foi cumprido em todos os lugares. A maioria dos membros do presente sínodo afirmou que o costume de expor o catecismo todo domingo deveria ser introduzido em todas as igrejas.

28 DE NOVEMBRO. O sínodo continuou o debate sobre a maneira de catequisar as crianças.

29 DE NOVEMBRO.  O decano de Worcester pregou sobre Eclesiastes 7:16: “Não sejas demasiadamente justo, nem demasiadamente sábio”. Ele disse “que houve dois tipos de teologia, uma escolástica e a outra adaptada à capacidade comum; que a primeira criou um debatedor e a segunda um cristão; e que, consequentemente, esta última é preferível à primeira; que foi corretamente observado por alguém que a doutrina da predestinação está para teologia assim como a álgebra está para a aritmética; que se São Paulo viesse ao mundo novamente, ele não entenderia a sutil disputa entre jesuítas e dominicanos; que a teologia moderna é como as grandezas [quantity] matemáticas, as quais são divisíveis por infinito [in infinitum]”. O pregador concluiu com uma exortação à paz. “Promova a paz”, ele disse. “Nós somos todos irmãos. Por que usaríamos os injuriosos termos Calvinistas e Arminianos? Nós somos todos cristãos: tenhamos uma única mente”.

30 DE NOVEMBRO. Foi solicitado que deveria haver três diferentes catecismos: um para a família, outro para as escolas e um terceiro para as igrejas.

1 E 3 DE DEZEMBRO. Nestas duas seções a assembleia falou sobre o batismo dos filhos de descrentes, e examinou como estudantes de teologia deveriam ser treinados para qualifica-los para o santo ministério.

4 DE DEZEMBRO. O sínodo emitiu o seguinte decreto: que não era legal aos estudantes de teologia a administração do batismo.

5 DE DEZEMBRO. A assembleia determinou que adultos descrentes deveriam ser ensinados e batizados, se eles assim desejassem; e que as crianças de pais descrentes não deveriam ser admitidas ao batismo.

6 DE DEZEMBRO. Os treze remonstrantes, os quais foram intimados a apresentar-se em Dort em 5 de dezembro, foram introduzidos no sínodo por seus irmãos de Utrecht e sentaram-se próximos à mesa cumprida no centro do hall. O moderador os chamou: “Veneráveis, famosos e excelentes irmãos em Cristo.” Episcopius, que era o porta-voz deles, saudou os comissários e clérigos. Ele disse que os remonstrantes vieram para defender a sua causa, diante daquele venerável assembleia, por razões apoiadas na Palavra de Deus; ou ser melhor instruídos pela mesma Palavra. Ele acrescentou que os ministros citados, tendo chegado tarde no dia anterior, precisavam de um pouco mais de tempo para se prepararem para entrar em conferência sobre os artigos em questão. Depois daquele discurso os remonstrantes retiraram-se. O sínodo resolveu fazê-los apresentarem-se no dia seguinte. Polyander disse que os remonstrantes deveriam estar cientes de que eles não foram citados para entrar em uma conferência, mas para apresentarem suas opiniões e submetê-las ao julgamento do sínodo. Conforme o presidente, os remonstrantes foram enviados e o sínodo se reuniu para julgá-los, e não para dialogar com eles.

No mesmo dia, os remonstrantes visitaram os clérigos estrangeiros para desejar-lhes um bom trabalho. A maioria daqueles clérigos foi receptiva. Alguns lamentaram a condição deles e outros pareciam predispostos contra eles, particularmente, Diodati de Genebra.

7 DE DEZEMBRO. Ao serem introduzidos à assembleia, Episcopius desejou ser livre para falar. Ele discursou por uma hora e meia com muita firmeza. O discurso foi ouvido atentamente. Muitas pessoas foram extremamente tocadas por ele, e derramaram lágrimas. O Sr. Hales escreveu ao embaixador inglês que foi um forte e vivo discurso, e que Espiscopius havia falado com toda a graciosidade de um hábil orador.

Então o moderador, os ministros e os anciãos das Províncias Unidas fizeram o seguinte juramento:

“Eu prometo diante de Deus, em quem eu creio, e a quem eu adoro, e que está presente neste lugar, e que sonda os corações, que durante o curso das questões deste sínodo, o qual examinará e decidirá não apenas sobre os cinco pontos, e todas as dificuldades que resultam deles, mas também qualquer outra doutrina, eu não devo usar nenhum escrito de homens, mas apenas a Palavra de Deus, que é uma infalível regra de fé. E durante todas as discussões, eu devo buscar somente a glória de Deus, a paz da igreja e, especialmente, a preservação da pureza da doutrina. Assim, ajuda-me Jesus Cristo, meu salvador. Eu suplico que me auxilie com teu Santo Espírito.”

Esse juramento não foi proposto aos remonstrantes representantes de Utrecht. Todos os clérigos estrangeiros realizaram o juramento, exceto pelos suíços, que alegaram sobre esse ponto algumas instruções de seus soberanos. Muitos ficaram surpresos por esse juramento não ter sido administrado na abertura do sínodo, mas ter sido adiado até a 23ª seção, após a realização de diversos decretos e da apreciação de muitas questões. Suspeita-se que isso foi uma manobra para excluir os Remonstrantes de Utrecht; pois, se eles tivessem realizado o juramento na abertura do sínodo, teria sido difícil dispensá-los quando os outros remonstrantes chegaram sem demonstrar grande parcialidade. Também foi dito que se o sínodo tivesse os dispensado desde o início, tal atitude teria revelado seus planos. Mas, quando a questão remonstrante estava para ser examinada, foi concordado que a presença dos clérigos de Utrecht seria prejudicial, porque eles defenderiam a causa dos outros remonstrantes, e lhes transmitiriam todas as ações do sínodo. A fim de obrigar os remonstrantes de Utrecht a deixar o sínodo, suas cartas credenciais foram novamente examinadas; o que dá ocasião para pensar que o plano sempre foi excluí-los da assembleia.

8 DE DEZEMBRO. Houve grande debate sobre esse ponto. No dia seguinte, que era domingo, os ministros pregaram violentamente contra os remonstrantes.

10 DE DEZEMBRO. Neste dia o presidente solicitou aos remonstrantes que entregassem por escrito seus sentimentos sobre os cinco pontos. Episcopius quis permissão para entregar à assembleia um documento que deveria ser apreciado primeiro. Esse documento era composto de duas partes. Na primeira, os remonstrantes diziam que não reconheciam os membros do sínodo como juízes legítimos sobre eles, porque a maioria deles, exceto os clérigos estrangeiros, eram declaradamente seus inimigos. A segunda parte do documento mencionava doze condições necessárias para se constituir um verdadeiro sínodo. A leitura dessa parte durou mais de duas horas e cansou muitos membros da assembleia. A assembleia ficou deveras incomodada com esse memorando. O moderador exortou os remonstrantes a se submeterem ao sínodo. Eles então perguntaram ao moderador se os reformados se submeteriam a um julgamento de um sínodo formado por luteranos?! O presidente não respondeu a pergunta, mas, usando sua autoridade, ordenou o silêncio. Na verdade, sempre que ele ficava confuso, ele costumava exclamar: satis est sufficit (já basta); e algumas vezes, Excite, Go out (Desperte, Saia).

No mesmo dia, o moderador falou aos remonstrantes que eles eram audaciosos e insolentes demais por rejeitar a autoridade de tal assembleia; que a condição atual deles era diferente da anterior; que a situação havia mudado; que eles deveria respeitar o momento, e se portar com humildade. Os remonstrantes continuaram a declarar que eles não seriam julgados por seus adversários.

11 DE DEZEMBRO. Eles fizeram sua defesa e protestaram contra a jurisdição do sínodo. Durante toda essa seção, os remonstrantes foram fechados em uma sala para que ninguém pudesse informa-los do que se passava no sínodo. Normalmente as portas ficavam trancadas. E eles eram observados por dois ou três porteiros, para prevenir que eles falassem com alguém.

12 DE DEZEMBRO. Os remonstrantes receberam uma nova advertência com respeito aos seus protestos.

No mesmo dia eles receberam ordem para obedecerem ao sínodo. A assembleia fez bastante barulho. Daniel Heinsius golpeou a mesa diversas vezes o mais forte que podia, dizendo: “Vocês vão obedecer, ou não?” Não obstante, eles persistiram em sua recusa. Depois disso, eles puderam se retirar. Mais tarde, após terem conferenciado em conjunto, eles vieram novamente à assembleia e declararam: “Nós consideramos a resolução dos comissários de Sua Alta Grandeza (Their High Migthinesses) os Estados Gerais, e nós concordamos em responder, isso sem prejuízo da liberdade de consciência e o direito de julgar se este sínodo é uma assembleia legítima, que nós estamos prontos para propor nossos sentimentos sobre os cinco pontos, e para explica-los e defende-los; e no caso de possuirmos algo a objetar, faremos isso por escrito, com as razões de nossas dúvidas”. Foi-lhes exigido então, para o dia seguinte, apresentarem por escrito seus apontamentos sobre o primeiro ponto (predestinação).

13 DE DEZEMBRO. Episcópius leu um documento, o qual continha a opinião dos remonstrantes sobre o primeiro ponto, a saber, predestinação.

14 DE DEZEMBRO. A assembleia os ordenou a preparar para a próxima seção suas proposições sobre os outros quatro pontos.

15 DE DEZEMBRO. Abraham Scultet, professor de teologia em Heidelberg, discursou com base no salmo 122. Ele falou muito sobre a “paz dos irmãos”, entre aqueles que não respiravam nada além de guerra.

17 DE DEZEMBRO. Os remonstrantes apresentaram sua doutrina sobre os quatro outros pontos.

18 DE DEZEMBRO. Lydius pregou violentamente contra os inovadores, que caluniavam a igreja, a fim de fazer a doutrina dela odiosa. Ele disse que esses pertenciam à descendência de Cão, que expôs a nudez de seu pai.

19 DE DEZEMBRO. A igreja de Campen trouxe ao sínodo reclamações contra os ministros remonstrantes daquela cidade.

20 DE DEZEMBRO. O sínodo informou aos remonstrantes que eles deviam declarar suas opiniões não tanto quanto julgassem necessário, mas o quanto a assembleia pensasse ser adequado. Polyander disse que se fosse permitido aos remonstrantes seguir o método proposto por eles próprios, eles fariam a doutrina reformada odiosa, e a boa causa seria exposta a grande perigo.

21 DE DEZEMBRO. Os remonstrantes apresentaram suas observações sobre a confissão de fé.

27 DE DEZEMBRO. O moderador declarou aos remonstrantes que o sínodo permitia a eles somente defender sua doutrina, e não explica-la conforme julgassem adequado. Episcópius respondeu que os remonstrantes não podiam aceitar aqueles termos, sem com isso ferir sua consciência. O moderador replicou que o sínodo não permitiria que a doutrina reformada fosse refutada. Episcópius disse que os remonstrantes não podiam reconhecer que Deus condenou a maior parte da humanidade por um decreto eterno e irrevogável, simplesmente com o propósito de mostrar sua severidade e poder. — O Dr. Hales diz que Gomarus, percebendo que ele era particularmente interessado, falou ao sínodo: “Ninguém mantém que Deus condenou absolutamente os homens sem considerar o pecado; mas, assim como ele decretou o fim, ele também decretou os meios; ou seja, assim como Deus predestinou o homem à morte, ele também predestinou ao pecado”. Sobre esta ocasião, o Dr. Hales adiciona que Gomarus imitou os funileiros do país, que abriam dois buracos, enquanto fechavam um.

No mesmo dia, os remonstrantes foram ordenados a obedecer, sob pena de serem punidos a critério do magistrado. Mas eles permaneceram em sua decisão.

28 DE DEZEMBRO. Eles enviaram uma carta ao sínodo, na qual eles explicaram as razões pelas quais eles não podiam obedecer aquela assembleia. Episcopius declarou que era razoável que os remonstrantes explicassem e defendessem sua doutrina, não tanto quanto o sínodo julgasse adequado, mas tanto o quanto eles mesmos sentissem ser necessário. Ao que a maioria dos membros do sínodo reagiu com gargalhadas. Depois de uma longa discussão, os quinze remonstrantes declararam que eles não poderiam obedecer ao sínodo com a consciência em paz. Eles foram então ordenados a não deixarem a cidade sem permissão.

No mesmo dia, foi deliberado suavizar o decreto do sínodo.

29 DE DEZEMBRO. Os remonstrantes ainda queriam poder expor suas opiniões o tanto quanto vissem necessidade. Nessa ocasião, os teólogos holandeses manifestaram seu desprezo pelos remonstrantes. Novamente eles foram questionados se seguiriam a metodologia prescrita pelo sínodo. Eles responderam que não se submeteriam. Foi então acordado enviar três comissários, e dois ministros (O assessor Faukelius e o secretário Damman), aos Estados Gerais, para informa-los sobre a desobediência dos remonstrantes. E os remonstrantes foram novamente proibidos de sair da cidade sem permissão.

31 DE DEZEMBRO. Polyander discursou sobre as palavras do profeta Isaías (Is 52:7): “Quão formosos são, sobre os montes, os pés do que anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz”. O presidente, depois de agradecer ao professor, disse que não tinha dúvidas de que o sínodo estava na direção do Espírito de Deus, especialmente por causa dos vários sermões eruditos e piedosos ministrados naqueles últimos dias no sínodo.

ANO DE 1619

2 DE JANEIRO. Essa seção não conteve nada que mereça a nossa atenção.

3 DE JANEIRO. A decisão dos Estados Gerais sobre o sínodo foi lida nessa seção. Importou, “que os Estados Gerais tendo ouvido o relato dos comissários e ministros, aprovaram todas as deliberações do sínodo com respeito ao caso dos remonstrantes. Os Estados declararam que os remonstrantes estavam obrigados a se submeter àquelas deliberações, e que deveria ser exigido deles que se submetessem aos decretos semelhantes que ainda estavam por vir; que se eles persistissem na desobediência, eles estariam sujeitos não apenas à censura da igreja, mas também à censura dos Estados; que se eles continuassem na mesma desobediência, suas opiniões deveriam ser examinadas de acordo com a palavra de Deus; e que os remonstrantes deveriam permanecer na cidade, e não sair dela sem a expressa permissão por escrito dos comissários”.

Depois da leitura da decisão, o moderador comprometeu-se a vigiar os remonstrantes. Eles declararam que não poderiam tratar com o sínodo com a consciência em paz, mas somente sob os termos mencionados em sua última resposta.

Após os remonstrantes serem retirados, o moderador fez uma oração na qual ele insurgiu-se contra a obstinação deles. Ele disse que os remonstrantes não agiam por um princípio de consciência, mas com visões mundanas; e ele orou a Deus para revelar e confundir os planos deles.

4 DE JANEIRO. Um ministro remonstrante, observando que os pregadores haviam comparado os arminianos com Cão, o qual havia exposto a nudez de seu pai, adicionou que aqueles pregadores eram como Sem e Jafé, que se esforçaram para cobrir a nudez, mas fizeram isso de costas, e muito constrangidos.

O sínodo começou a extrair diversas proposições dos livros dos remonstrantes. A seis seções posteriores não forneceram nada significativo.

11 DE JANEIRO. Muitas questões foram novamente feitas aos remonstrantes, e eles foram exortados a se submeterem ao sínodo.

12 DE JANEIRO. Nesta seção houve uma reunião privada entre os comissários e os ministros remonstrantes.

14 DE JANEIRO. Os comissários fizeram um relato detalhado ao sínodo sobre o que se passou naquela reunião, e disseram que os remonstrantes persistiam em sua desobediência. O moderador perguntou a eles se obedeceriam às ordens do sínodo sem qualquer estipulação. Episcópius respondeu: “Nós preparamos uma resposta por escrito, e desejamos que ela seja lida, e então entregue ao sínodo”. O moderador replicou: “Responda peremptoriamente sim, ou não”. Episcópius respondeu: “Tal resposta será encontrada no documento, o qual todos nós subscrevemos”. Os comissários e o moderador continuaram insistindo que a resposta deveria ser sim, ou não. Episcópius então declarou: “É muito estranho que nós não conseguimos obter, em um sínodo livre, o pequeno privilégio de ler nossa resposta. Tal coisa jamais foi negada”. No final, os comissários permitiram que os remonstrantes entregassem o documento. Eles então pediram permissão para ler o documento todo, ou ao menos a introdução. O pedido foi negado; eles entregaram o documento e foram ordenados a retirar-se.

Logo depois eles foram chamados de volta e o moderador os questionou se eles confirmavam a resposta contida no documento deles expressa nessas palavras: “Nós fomos ordenados a nos submeter às resoluções do sínodo. Mas nós temos constantemente declarado que não poderíamos fazê-lo com a consciência em paz. Ademais, temos mostrado em geral, que as demandas do sínodo são inconsistentes com a justiça, e que a assembleia exigiu de nós coisas contrárias à vontade de Deus. Ainda continuamos com as mesmas disposições”. Todos os remonstrantes confirmaram a resposta. O moderador ordenou que eles ficassem de pé, e que assinassem isso na sua mesa. Episcópius disse: “Deixem que o documento seja trazido até nós, e nós o subscreveremos”. O moderador insistiu que eles se levantassem para colocar as mãos no documento. Episcópius obedeceu. Mas o moderador, percebendo que muitos membros do sínodo reprovaram a utilização de tanta arrogância contra os remonstrantes, ordenou que o papel fosse levado à mesa deles, onde eles o assinaram sentados.

Depois disso, o moderador afirmou: “Vocês não merecem que o sínodo mantenha qualquer correspondência mais demorada com vocês. Portanto, estão dispensados. Quando for do desejo do sínodo que vocês apareçam novamente, vocês serão notificados. Estejam também cientes de que tomaremos o cuidado de informar à cristandade sobre sua obstinação demonstrada na oposição às resoluções do sínodo; e vocês verão que a igreja não quer armas espirituais para puni-los. Uma censura justa será imposta sobre vocês; e o sínodo mostrará a equidade disso em todos os países cristãos. Eu os dispenso, portanto, no nome dos senhores comissários deste sínodo. Vão embora”.

Os remonstrantes levantaram e saíram da assembleia. Episcópius disse, enquanto saía: “Que Deus julgue entre o sínodo e nós sobre a malícia, os enganos e as mentiras colocadas para nos acusar”.

Assim os quinze remonstrantes foram expelidos do sínodo. A julgar pelo discurso do moderador, parece que o teólogo no comando de uma assembleia eclesiástica pode entregar-se a um impulso não-cristão. Essa decisão não foi aprovada por muitos representantes estrangeiros e nem mesmo por alguns das Províncias Unidas. Eles ficaram escandalizados com o furor do moderador, que frequentemente falava um falso latim no calor do momento. O Dr. Hales escreveu ao embaixador inglês: “Os teólogos estrangeiros julgaram que os Remonstrantes tinham sido tratados com grande parcialidade. A proposta era”, disse ele, “que todo o corpo sinodal julgasse a conduta dos remonstrantes; porém, quando qualquer assunto entrava em discussão, se algum teólogo estrangeiro falasse em favor dos remonstrantes, os holandeses se opunham a eles com todas as forças, tendo pouca consideração pela opinião dos teólogos estrangeiros, a menos que estivessem alinhados com eles”.

Balcanqual, o representante escocês, escreveu ao mesmo embaixador nas seguintes palavras: “Quanto à expulsão dos remonstrantes, eu gostaria de poder dizer, sem ofender ninguém, que o sínodo cometeu um grande erro”. O mesmo teólogo afirmou em outro lugar: “Depois de ter reunido os votos de uma pequena parte do sínodo, os remonstrantes foram chamados perante a assembleia, e ordenados a sair através do mais violento discurso. Eu confesso, eu fico muito desconfortável quando me lembro disso. Pelo que, se os remonstrantes dissessem que o moderador passou uma sentença que não era a sentença do sínodo, eles estariam dizendo nada mais do que a verdade. Pois, uma terça parte dos votos não foi contabilizada, e consequentemente uma sentença justa não poderia ser estabelecida. Além de que, ela não foi posta no papel e aprovada pelo sínodo. As palavras injuriosas dessa sentença não foram o resultado de nenhum voto; e ninguém além de apenas um membro disse qualquer daquelas palavras. Você corretamente condena esse discurso, e sua censura sobre ele deve ser respeitada”.

Lewis Crocius, professor de teologia em Bremen, discursou no dia posterior da seguinte maneira: “Eu observei que o moderador se exaltou demasiadamente nessa ocasião, e que ele deixou escapar algumas palavras duras, as quais se desejaria que ele tivesse evitado. Em uma questão de tamanha importância, maior prudência deveria ter sido usada. O sínodo deveria ter sido consultado sobre ela, e uma forma de demissão preparada de forma a ser pronunciada em nome da assembleia, e registrada. Por esses meios, o sínodo não seria difamado por conta da severidade do presidente. Teria sido mais glorioso para o sínodo agir com menos paixão”.

Os remonstrantes reclamaram que foram expulsos por reusarem-se a ser julgados por seus adversários, e por entenderem que tinham o direito de estabelecer como e quando deveriam falar, ou permanecer em silêncio, ao defender a própria causa. Eles disseram que não era novidade evitar o julgamento de um sínodo parcial: muitos doutores da igreja, da antiguidade e modernidade, haviam recusado se apresentar diante de tais tipos de assembleias, ou foram embora ao perceberem que seus inimigos seriam seus juízes; que pela mesma razão, os protestantes não se submeteram ao julgamento do concílio de Trento. Adicionaram também que em todas as cortes civis, a suspeita de parcialidade era uma das principais razões para se opor a um júri. Eles se queixaram particularmente do moderador, que sempre os interrompia quando julgava conveniente, ou mandava que se silenciassem ou se retirassem para que pudesse falar o que desejasse sem medo de ser condenado.

Ainda na mesma seção, 14 de janeiro de 1619, depois de já ter expulsado os remonstrantes, a assembleia resolveu fazer cópias da explicação do primeiro artigo, que fora apresentada pela manhã, para que todos os membros da assembleia pudessem examiná-la.

15 DE JANEIRO. As mesas, bancos e cadeiras que haviam sido colocadas para os remonstrantes foram removidas.

O sínodo continuou a reunir as opiniões dos membros da assembleia com respeito ao método para analisar os cinco pontos; foi decidido preparar um decreto sobre essa questão, para que a assembleia pudesse examinar e aprovar.

16 DE JANEIRO. O moderador propôs diversas coisas para explicar o segundo artigo. Um formato foi produzido, sobre a maneira para se examinar a doutrina dos remonstrantes; ela foi aprovada pela maioria dos votos.

17 DE JANEIRO. Sibrand Lubbert, professor de Franeker, iniciou a análise dos cinco pontos. Ele falou sobre os decretos de Deus, e se esforçou para refutar o sentido que os remonstantes davam a algumas passagens da escritura.

18 DE JANEIRO. Gomarus explicou as palavras eleger, eleição e eleito.

21 DE JANEIRO. A decisão dos Estados Gerais foi lida, na qual foram aprovados os procedimentos do sínodo desde o primeiro dia de janeiro.

No mesmo dia, os remonstrantes enviaram ao sínodo um memorando, o qual foi lido pelo moderador e por alguns outros teólogos; mas não foi comunicado à assembleia. Eles mostravam como haviam sido usados pelo sínodo, que inflamou contra eles o supremo poder, os teólogos estrangeiros e os comissários do estado. Eles mantiveram que o sínodo nunca planejou garantir-lhes a liberdade necessária para defender suas opiniões; e que haviam sido tratados com grande parcialidade e injustiça, especialmente quando foram despedidos de maneira extremamente rude.

22 DE JANEIRO. O sínodo se reuniu privadamente ao entardecer, para discutir alguns artigos sobre os quais não houve acordo entre os membros.

No dia seguinte, os teólogos estrangeiros se encontraram nos aposentos do bispo de Landaff. Foi então que cada teólogo estrangeiro recebeu sua respectiva tarefa quanto ao exame dos cinco pontos. Balcanqual escreveu ao embaixador inglês que havia, a esse respeito, uma grande confusão nos procedimentos do sínodo; que a assembleia não sabia nada dos métodos de questões relacionadas a um comitê, sobre reportar ao sínodo, que era o responsável por aprovar ou rejeitar, como é a prática em todos os concílios; que as questões eram imediatamente comunicadas ao sínodo, o que era o motivo de haver muitas opiniões entre os membros. E por último, que os teólogos holandeses estavam tão inclinados contra os remonstrantes que dos estrangeiros não era aceitável a eles.

Os líderes do sínodo ficaram perplexos porque muitos teólogos estrangeiros não estavam satisfeitos com sua conduta. Eles (os estrangeiros) reclamaram que os remonstrantes foram refutados em sua ausência, embora eles ainda estivessem na cidade, e estivessem dispostos a explicar sua doutrina, sob a condição de que lhes fosse concedida uma liberdade razoável. Os representantes das Províncias Unidas sabiam que eles não podiam se justificar com facilidade a esse respeito. Mas o que eles poderiam fazer? Seria perigoso tomar novas medidas, pois a autoridade do sínodo poderia ser depreciada; e, dessa forma, eles não julgaram inadequado chamar novamente os remonstrantes. Entretanto, para satisfazer aos estrangeiros, foi acordado conceder aos remonstrantes um pouco mais de liberdade. Os comissários enviaram a eles, no vigésimo terceiro dia de janeiro, e o presidente falou-lhes que, embora estivessem excluídos do sínodo, os comissários garantiriam a eles a liberdade de escrever, para explicar ou defender a doutrina deles, e que teriam duas semanas para esse propósito.

Os remonstrantes foram positivamente surpreendidos pela proposta, e aceitaram de bom grado a oferta. Acreditava-se que os comissários deram esse passo contra a vontade dos líderes do sínodo.

24 DE JANEIRO. Polyander e Walaius explicaram algumas passagens da escritura que os reformados usavam para argumentar contra os remonstrantes.

25 DE JANEIRO. Goclenius, professor de teologia em Marpurg, se empenhou em refutar os remonstrantes. Ele foi instado a se explicar mais claramente, visto que ele sempre aprovara a opinião de Melancthon, que era muito próxima da opinião dos remonstrantes; e também porque ele se aliara àqueles que condenaram essa opinião. Ele respondeu que sabia que o príncipe e os estados agiriam assim; e acrescentou: Et nos habemus hic bonum vinum (Além de haver aqui um excelente vinho). Na verdade o aroma dele o fez dormir frequentemente no sínodo.

Os remonstrantes enviaram um memorando aos Estados Gerais e uma carta ao príncipe Mauricio justificando sua conduta no sínodo. Esses dois documentos não foram respondidos.

28 DE JANEIRO. Abraham Scultet discursou sobre a segurança da eleição. Ele argumentou sobre a necessidade de todos estarem seguros de sua salvação. No final do discurso, ele exortou os comissários a não mais suportar as abominações dos remonstrantes nas Províncias Unidas.

29 DE JANEIRO. Altingius declarou: “Deus reprovou quem ele quis, de acordo com a sua simples vontade, sem levar em conta o pecado; os pecados que se seguiram dessa reprovação, são os frutos dela; Deus, todavia, permanece santo; e nós devemos clamar, a exemplo do querubin: Deus é santo, embora reprove os homens; Deus é santo, embora ele os cegue; Deus é santo, embora ele os endureça”.

30 DE JANEIRO. Um método mais reduzido para as rotinas e procedimentos foi proposto, mas foi rejeitado pela maioria de votos.

31 DE JANEIRO. Preparações foram feitas para entrar na discussão do segundo artigo.

1 DE FEVEREIRO. Balcanqual e Crueiger falaram sobre o segundo artigo. Depois disso, o moderador ordenou a Steinius, professor em Cassel, que se preparasse para falar sobre o quarto artigo, após haver acordo sobre o terceiro. Os teólogos ingleses ficaram surpresos com a rapidez dos procedimentos do sínodo, pois nem todos os representantes haviam apresentado suas opiniões sobre o terceiro artigo. Eles não podiam compreender a razão de tanta pressa. Por causa desse ocorrido, o Dr. Hales comparou o sínodo a um relógio, cujas principais engrenagens encontram-se escondidas.

4 DE FEVEREIRO. Foi proposta a elaboração de alguns tratados para o uso das igrejas holandesas, nos quais os cinco artigos seriam explicados, e outra obra dividida em duas partes. A primeira parte seria uma refutação dos erros contrários à fé ortodoxa; e a segunda seria um relato histórico do que havia sido transacionado no sínodo.

Depois, foi proposto responder as objeções dos remonstrantes contra a confissão de fé deles. Por último, o moderador propôs enviar breves relatos dos procedimentos do sínodo para o rei da Grã-Bretanha e a outros príncipes e estados que haviam enviado delegados ao sínodo.

5 DE FEVEREIRO. O segundo artigo dos remonstrantes foi examinado. A assembleia discutiu sobre os méritos da morte de Cristo. Martinius de Bremen e os doutores Ward e Davenant mantiveram, assim como os remonstrantes, que Cristo morreu por todos os homens. O bispo de Landaff, Dr. Goad, outro clérigo inglês, e Balcanqual, um escocês, mantiveram o contrário, que ele morreu apenas pelos eleitos. Essa diferença de opinião trouxe muitos problemas ao sínodo; havia temor que isso ocasionasse desordem. Isso foi contornado pelo moderador tão somente não tomando conhecimento das opiniões dos clérigos ingleses sobre esse artigo.

6 DE FEVEREIRO. Steinius tratou do quarto artigo dos remonstrantes, mantendo que a graça de Deus é irresistível.

No sétimo dia do mesmo mês, os remonstrantes apresentaram aos comissários um documento contendo: (1) Uma defesa do primeiro artigo de sua declaração, e uma refutação contra seus adversários sobre o assunto. (2) Uma explicação do capítulo 9 da epístola de Romanos. (3) Um discurso sobre a reprovação. (4) Uma ampla explicação do segundo artigo e o testemunho dos reformados sobre o mesmo artigo.

7 DE FEVEREIRO. O moderador deu conhecimento ao sínodo que os remonstrantes haviam apresentado um grande manuscrito aos comissários. Foi acordado adiar a apreciação do documento até a próxima segunda-feira.

8 DE FEVEREIRO. Martinius de Bremen enviou um recado a Poppius, um ministro remonstrante, que ele desejava vê-lo naquela noite; ele ainda disse que, embora não aprovasse todas as opiniões dos remonstrantes, ainda assim ele julgava que os tais deveriam receber um tratamento diferente; que havia algumas coisas diabólicas no sínodo, outras que eram divinas, e ainda outras que eram humanas; que muitas coisas deveriam ser reformadas na religião, mas que isso deveria ser feito cuidadosamente; que ele era um grande inimigo da doutrina da reprovação tal qual os remonstrantes; que ele não subscrevia a opinião de Piscator, embora tivesse sido seu colega por onze anos. Martinius reclamou da indelicadeza que ele mesmo havia encontrado desde sua chegada a Dort. Ele disse que jamais havia enfrentado tanta dificuldade em qualquer outro lugar; que ele era considerado como um hipócrita e dissimulado. Ele solenemente declarou que jamais falaria algo contra sua consciência a fim de agradar alguém. Ele disse que havia frequentemente expressado sua afeição pelos remonstrantes, e que sua causa não requereria defensores. E ainda disse que os estados parecem brincar com os representantes estrangeiros, visto o sofrimento deles pelo grande número de ministros depostos, enquanto a disputa ainda não estava decidida no sínodo.

9 DE FEVEREIRO. O moderador apresentou ao sínodo algumas proposições concernentes aos terceiro e quarto artigos dos remonstrantes.

11 DE FEVEREIRO. Sebastian Bekkius, um teólogo suíço, examinou o quarto artigo, e esforçou-se para refutar os argumentos dos remonstrantes, pelos quais eles tentaram provar que a graça não é irresistível.

Quando Bekkius terminou seu dircurso, o moderador despediu os ouvintes. As portas foram fechadas e o sínodo examinou o que deveria ser feito com o grande manuscrito que os remonstrantes entregaram aos comissários.

Os membros ficaram muito divididos em seu julgamento. A maioria concordou que um comitê deveria ser indicado para examiná-lo, e informar à assembleia se havia algo novo.

No mesmo dia, eles começaram a examinar os terceiro e quarto artigos dos remonstrantes.

13 DE FEVEREIRO. A assembleia prosseguiu com o exame dos artigos remonstrantes.

No décimo quinto dia do mesmo mês, os remonstrantes apresentaram uma extensa explicação do terceiro, quarto e quinto artigos.

15 DE FEVEREIRO: Alstedius, professor em Herborn, falou contra os artigos terceiro e quarto dos remonstrantes, discursando sobre graça irresistível e resistível.

18 DE FEVEREIRO. Eles leram trinta e sete páginas do manuscrito.

No mesmo dia, Gomarus e alguns outros clérigos das Províncias Unidas trataram Martinius de uma maneira indigna; todos os estrangeiros sentiram-se ofendidos por isso e Martinius ficou pronto para deixar o sínodo. Balcanqual declarou que, embora um clérigo não aprovasse qualquer dos cinco artigos dos remonstrantes, mesmo assim os ministros holandeses não o consideravam como ortodoxo, se ele tão somente discordasse minimamente de alguma de suas opiniões.

19 DE FEVEREIRO. Cinquenta e sete páginas do manuscrito foram lidas.

No mesmo dia, o sínodo foi preenchido pela discórdia. Balcanqual relata que havia um plano para envergonhar os clérigos de Bremen. Sibrand Lubbert e Scultet atacaram Martinius sem nenhuma civilidade. Scultet disse que alguns homens tinham em mente introduzir a teologia dos jesuíta na igreja reformada, e corromper a juventude. Martinius respondeu a Scultet com grande moderação. Crocius, seu colega, permaneceu em silencio.

Depois de tudo, Gomarus examinou os artigos terceiro e quarto dos remonstrantes. Balcanqual relata que Gomarus deixou escapar “algumas expressões contra os clérigos de Bremen, as quais somente poderiam sair da boca de um louco“. Martinius havia dito que ele ficaria feliz em ter sua dúvida esclarecida: “Como Deus pode requerer do homem, o qual tem poder limitado, uma fé salvadora que é efeito de um poder ilimitado?” Ele acrescentou que nem Calvino, nem qualquer outro teólogo reformado, conseguira desatar esse nó. Gomarus respondeu, que “a pessoa que fala assim, não era digna de desatar as correias das sandálias de Calvino, e que a dificuldade que Martinius havia proposto era tão desconsiderável que um garoto do colegial poderia resolvê-la”. Essas palavras aumentaram a indignação da assembleia, quanto mais porque Martinius não havia dito nada contra Gomarus. Quando Gomarus encerrou seu discurso, o bispo de Landaff disse ao moderador “que não era o propósito da assembleia dar a qualquer um a oportunidade de mostrar sua paixão por disputas”. Com isso, ele desejava que o vínculo da unidade fosse preservado. Então gomarus gritou: “Vossa excelência senhor bispo, o sínodo não deve ser governado por autoridade, mas pela razão. Eu tenho o direito de falar por mim mesmo, e ninguém deve pensar que vai me impedir de fazê-lo por sua autoridade. O bispo não respondeu, e o moderador disse a ele que “o ilustre doutor Gomarus não tinha falado contra pessoas, mas contra suas opiniões; e, consequentemente, não havia dito nada que merecesse censura”. Pareceu que o moderador fazia parte da conspiração contra Martinius. Martinius apenas disse que sentia muito ser recompensado daquela forma depois de sua longa jornada.

Thysius, professor em Harderwick, declarou que sentia muito o fato de Martinius sentir-se injustiçado por palavras que eram verdadeiras. Nesse meio tempo, Gomarus e Sibrand Lubbert puxaram-no pela sua capa e investiram contra ele de uma maneira terrível. Toda a assembleia estava surpresa com a paciência de Crocius, colega de Martinius. Ele permaneceu o tempo todo em silêncio.

20 DE FEVEREIRO. Sessenta e três páginas do manuscrito dos remonstrantes foram lidas.

No mesmo dia, Dr. Mayer, um clérigo suíço, ministro de Basel, declarou que os remonstrantes tinham trazido Pelágio do inferno para colocá-lo no céu; que eles haviam tirado o respeitável Austin do paraíso, para jogá-lo no inferno; que Pelágio seria enviado novamente para o seu lugar e Austin triunfaria no paraíso. Então ele dirigiu seu discurso aos comissários, ao sínodo, à cidade de Dort e aos remonstrantes. Ele disse muitas vezes que o Sínodo era uma assembleia santa, e cada vez que ele dizia isso, ele tirava o gorro de veludo com profundo respeito. Audite, (ele disse, por exemplo) satidicam vocen O sancta synodus! Quanto magis in veterascis, tanto magis efflorescis. (Ouça, santificado seja o sínodo santo! Quanto mais velho, mais floresce). Ele declarou que a cidade de Dort era agraciada, porque o sínodo se havia reunido nela. Ele a chamou de “cidade santa, a cidade celestial de Dort”.

21 DE FEVEREIRO. Sessenta páginas do grande manuscrito foram lidas.

22 DE FEVEREIRO. Outras setenta e cinco páginas foram lidas, as quais tratavam da doutrina da reprovação.

No mesmo dia os cinco professores das Províncias Unidas trataram sobre a doutrina da perseverança, e a leitura do grande manuscrito foi concluída. Os teólogos de Bremen resolveram não somente voltar para casa, mas também publicar uma defesa, na qual eles criticariam as injuriosas palavras ditas contra eles. Os estrangeiros reconheceram que esses teólogos haviam sido tratados indignamente, e que Gomarus estava em falta com o bispo de Landaff. Os ingleses queriam reconciliar os delegados de Bremen e Scultet, o que não parecia ser uma coisa fácil, visto que eles exigiam uma retratação pública, pois foram acusados publicamente de corromper a juventude. Martinius, desde então, tinha se ausentado do sínodo; e ele e seus colegas apresentaram queixa aos comissários contra Gomarus.

Os ingleses estavam decididos a fazer com que os comissários tomassem conhecimento da afronta imposta ao bispo de Landaff. Balcanqual quiz que o embaixador escrevesse ao presidente e exortasse-o a manter a paz na assembleia. Essa carta teve um bom efeito: o moderador pediu aos clérigos para não mais fazerem reflexões pessoais e alguns professores das Províncias Unidas mostraram grande moderação. Os teólogos de Bremen se contentaram com uma retratação privada. Scultet, Lubbert e Gomarus protestaram que eles não tinham más concepções dos delegados de Bremen, mas os viam como teólogos eruditos e piedosos. Martinius apareceu novamente no sínodo; mas ele muitas vezes desejou jamais ter estado em Dort. Ele declarou que este havia sido o primeiro sínodo que ele havia auxiliado, e seria o último. Ele ainda declarou que fora informado que se persistisse em sua obstinação, cuidados seriam tomados para que, ao retornar para Bremen, ninguém comparecesse mais às suas palestras teológicas; e que alguns já haviam escrito contra ele aos magistrados de Bremen, e se seus melhores amigos não tivessem intercedido por ele, ele estaria em apuros, pois não poderia aprovar nada que os líderes do sínodo exigissem dele. Pensa-se que essas ameaças tiveram alguma influência sobre ele: ele tinha onze filhos. Quantos teólogos honestos foram reduzidos à cruel necessidade de agir contra sua consciência, por medo de morrer de fome!

25 DE FEVEREIRO. Os remonstrantes apresentaram aos comissários a defesa do segundo artigo.

Isaac Frederic e Niellius, dois dos ministros remonstrantes, sendo informados que os magistrados de Utrecht suspenderam seus benefícios durante a ausência deles, quiseram deixar o sínodo e retornar para casa. Mas os comissários não permitiram.

26 DE FEVEREIRO. Cinquenta e seis páginas da defesa dos remonstrantes sobre o segundo artigo foram lidas.

27 DE FEVEREIRO. Mas cinquenta e três páginas da defesa remonstrante foram lidas. No mesmo dia, o moderador anunciou que o sínodo, pela graça de Deus, havia chegado ao fim da discussão sobre os cinco artigos. Tronchin de Genebra discursou sobre a perseverança do fiel.

28 DE FEVEREIRO. Cerca de cinquenta e quatro páginas da defesa remonstrante foram lidas. No mesmo dia, eles discursaram novamente sobre a perseverança.

1 DE MARÇO. Eles continuaram com o exame da mesma doutrina nesta seção e nas próximas.

4 DE MARÇO. Dominic Sapma, um dos ministros remonstrantes, foi informado que os magistrados de Horn tinham ordenado à esposa dele, a qual estava próxima de dar à luz, que deixasse a casa pertencente ao ministro. Ele foi tão afetado pela notícia, que resolveu voltar para Horn, sem a permissão dos comissários, a fim de ajudar sua esposa. Mas ele foi rapidamente chamado de volta para Dort.

5 DE MARÇO. Um longo memorial foi lido. No mesmo dia o moderador informou que a discussão sobre os cinco artigos estava concluída, com exceção da tarefa colocada sobre Diodati pelo sínodo. Este ministro estando indisposto, Martinius quis fazer um discurso sobre a pessoa de Cristo, Deus e o homem.

6 DE MARÇO. Um dos secretários, a pedido do moderador, iniciou a leitura das opiniões dos teólogos ingleses sobre os cinco artigos. Esses teólogos se opuseram a esse procedimento. Eles alegaram que o julgamento dos deputados de cada estado não deveria ser lido de forma clandestina. Que ler suas opiniões publicamente honraria ao sínodo, e que a todos deveria ser permitido ouvi-las. Pois, disseram eles, os próprios remonstrantes, convencidos da força de nossos argumentos, talvez desistam de algumas de suas opiniões; e todos os outros ouvintes serão confirmados na verdade, sendo testemunhas da harmonia que aparece entre tantos homens instruídos de países diferentes.

Essas objeções alarmaram o moderador. Os estrangeiros ficaram surpresos de que ele empreendesse uma coisa de tão grande importância, sem consultar os membros do sínodo. “Temos tido grandes dores”, diz Balcanqual, “para mostrar que condenamos todas as opiniões dos remonstrantes que mereciam ser rejeitadas. Por outro lado, tomamos o cuidado de condenar algumas expressões ásperas dos contra-remonstrantes, especialmente sobre a doutrina da reprovação. Sabemos que, quando elaborarem seus cânones, não tomarão conhecimento de nosso julgamento, porque os teólogos holandeses terão uma maioria, e por isso desejamos que as opiniões sejam lidas na presença de estranhos, para que possam ser testemunhas de nossa sinceridade.

Quando a assembleia se separou, o moderador enviou o secretário Damman aos teólogos ingleses, para recomendá-los a seguir seu conselho, de ler seu julgamento confidencialmente. Balcanqual diz que a mesma coisa também foi exigida dos outros delegados estrangeiros e conclui que o conselho do moderador era mais seguro e a opinião dos ingleses mais honrada.

No mesmo dia, foi acordado que o relatório das opiniões deveria ser feito sem testemunhas. A opinião dos teólogos ingleses e do Palatinado sobre o primeiro artigo foi lida. Estes últimos exortavam o clero a pregar raramente e com grande cautela sobre a doutrina da reprovação.

Nas sessões seguintes, prosseguiram com o relatório das opiniões dos teólogos estrangeiros sobre o primeiro artigo. Em seguida, foi feito um relatório das opiniões dos membros do sínodo, referentes aos quatro outros artigos. Os ingleses não limitaram a extensão da eficácia da morte de Cristo. Os teólogos do Palatinado caíram em uma paixão violenta contra o Dr. Ward, por causa de algumas coisas que ele havia dito sobre o segundo artigo. Balcanqual observa, que comparado a Gomarus, aqueles teólogos falaram mais magisterialmente.

Em geral, os ingleses falavam com moderação. Os deputados de Wetteravia disseram que os artigos dos remonstrantes “eram ondas enormes, que o diabo usou para agitar o mar da igreja.” Os teólogos de Genebra afirmaram que os remonstrantes “minaram os fundamentos da salvação: que eles trouxeram de volta o verdadeiro papado e temperaram a velha heresia dos pelagianos com um novo molho”. Os delegados de Bremen se distinguiram por sua moderação. Os de Emden pensaram ser adequado dizer, que a doutrina dos Remonstrants era “uma mistura de diversas heresias, que tinham sido anteriormente condenadas na pessoa de Pelágio, e tinham sido revividas pelos socinianos, os papistas, os anabatistas e os livre-pensadores”. Eles concluíram com estas palavras de São Paulo: “Quanto a esses que os perturbam, quisera Deus que se castrassem”. Os teólogos holandeses declararam que os erros dos remonstrantes não deveriam ser tolerados. Assim, no mesmo século, os católicos romanos da França disseram que os erros dos reformados não devem ser tolerados.

22 DE MARÇO. O moderador apresentou à assembleia o primeiro rascunho dos cânones sobre o primeiro e segundo artigos. Mas os ingleses e alguns delegados da Holanda do Sul se opuseram a isso, dizendo que uma comissão deveria ser nomeada para elaborar os cânones. Esse caso foi debatido com grande calor.

25 DE MARÇO. Os comissários entendiam que alguns teólogos estrangeiros e holandeses deveriam se juntar ao moderador e aos assessores para elaborar os decretos do sínodo. Os membros ficaram divididos sobre isso. Muitos deles desejavam que o moderador elaborasse os Cânones. Lubbert irou-se contra aqueles que eram de uma opinião contrária; ele disse que mereciam uma censura eclesiástica, e que os teólogos estrangeiros não deveriam se preocupar com esse assunto, já que não conheciam a situação das igrejas das Províncias Unidas.

Provavelmente haveria menos discussões no sínodo, se Lubbert e Gomarus não tivessem sido membros dele. Esses dois tiveram acessos de loucura diversas vezes. E nesta sessão, Lubbert investiu horrivelmente contra os delegados da Inglaterra. O Dr. Davenant, que era um homem moderado, desejava que lhe fosse permitido responder por ele e por seus colegas, mas não lhe foi permitido. Por fim, resolveu-se por maioria de votos, que alguns teólogos se uniriam ao presidente para elaborar os cânones. O bispo de Landatf, Scultet e Diodati, foram nomeados entre os estrangeiros. E entre os nativos, Polyander, Walaeus e Trigland. Todos os membros do Sínodo ficaram insatisfeitos com essa escolha. Balcanqual escreveu ao embaixador inglês que, se sua excelência não aconselhasse quem deveria redigir os cânones, o sínodo corria o risco de ser ridicularizado por todo mundo. Que o moderador e os outros teólogos holandeses não tinham respeito pelos estrangeiros e que estavam decididos a inserir em seus cânones todas as sutilezas de seu catecismo e todas as noções particulares dos teólogos das Províncias Unidas.

26 DE MARÇO. Os remonstrantes apresentaram outro documento aos Estados Gerais. Eles desejavam deixar o sínodo e ir para suas casas. No mesmo dia eles escreveram uma carta para o príncipe de Orange. Seu pedido foi negado.

16 DE ABRIL. Depois de terem gasto três semanas elaborando os cânones do sínodo, eles foram lidos perante a assembleia. Aqueles concernentes aos artigos primeiro e segundo foram aprovados. Mas os ingleses, e alguns outros teólogos estrangeiros, objetaram contra eles.

18 DE ABRIL. Os cânones concernentes aos artigos terceiro, quarto e quinto foram aprovados. Os ingleses produziram uma longa lista de expressões ásperas, e desejaram que fossem condenados pelo sínodo, mas foram ignorados.

19 DE ABRIL. A comissão apresentou a conclusão dos decretos do sínodo: ela continha uma defesa da doutrina das igrejas das Províncias Unidas. Os ingleses queriam que outras coisas, que mereciam ser condenadas, fossem inseridas nessa conclusão, e particularmente estas: “Que Deus move as línguas dos homens para blasfemar”, e que “os homens não podem fazer mais bem do que o que eles realmente fazem”. Os delegados de Hesse e Bremen aprovaram a proposta dos ingleses; mas a proposta foi rejeitada.

No mesmo dia, a conclusão dos cânones foi lida novamente e aprovada por todos os delegados das Províncias Unidas.

22 DE ABRIL. Os comissários aprovaram a mesma conclusão. Mas os deputados da Inglaterra exigiram que se fizesse alguma alteração nestas palavras: “As doutrinas contidas nos cânones devem ser consideradas como doutrinas das igrejas reformadas”. Eles salientaram que “foram enviados ao sínodo pelo rei, e não pela igreja de Inglaterra; que eles não foram autorizados a interpretar a confissão de fé daquela igreja; que se tinham contentado em propor suas opiniões particulares, acreditando que estavam de acordo com a verdade; que tinham aprovado muitas coisas contidas nos cânones do sínodo, embora não mencionadas na confissão da igreja da Inglaterra, porque acreditavam que nenhuma dessas coisas era contrária a essa confissão”.

Esta é uma passagem muito notável. Parece, a partir disso, que a igreja da Inglaterra não condenou a doutrina dos remonstrantes, e que julgou ser uma coisa muito insignificante enviar delegados ingleses ao sínodo de Dort, que não eram, propriamente falando, os representantes daquela igreja, e que não tinham poder para interpretar sua doutrina.

23 DE ABRIL. Todos os membros do sínodo assinaram os cânones. Eles também subscreveram a conclusão daqueles decretos.

24 DE ABRIL. O moderador apresentou a sentença a ser aplicada a todos os que rejeitarem a doutrina do sínodo. Importava que os remonstrantes “fossem introdutores de novidades; perturbadores do seu país, e das igrejas das Províncias Unidas; obstinados e desobedientes; defensores de facções e pregadores de doutrinas errôneas; culpados e condenados pela corrupção da religião, formando um cisma e destruindo a unidade da igreja. E causando um escândalo horrível”. Por estas causas, o sínodo condenou-os a serem privados de todas as funções eclesiásticas e acadêmicas.

Todos os ingleses declararam que, como os remonstrantes eram habitantes das Províncias Unidas, não passariam sentença sobre os súditos de outros estados. Todos os outros teólogos estrangeiros, exceto os de Genebra e Emden, eram da mesma opinião. Os teólogos holandeses objetaram contra algumas expressões da sentença. Eles disseram, entre outras coisas, que não era apropriado censurar os remonstrantes como perturbadores do estado. Houve uma grande disputa entre os mesmos teólogos sobre esta questão: se esses remonstrantes deveriam ser tolerados, quem, recusando-se a subscrever os cânones, se comprometeria a nunca falar contra eles, nem no púlpito, nem em uma conversa? Eles desejavam que os estrangeiros transmitiam seus pensamentos sobre esse assunto, mas o moderador não permitiria isso. Ele disse que esses assuntos domésticos devem ser deixados aos sínodos provinciais, e que ele não sabia ainda que tipo de tolerância os Estados Gerais podiam conceder aos remonstrantes.

No mesmo dia, a sentença foi lida uma segunda vez, depois de deixar de fora essas palavras: perturbadores do seu país. Os teólogos da Inglaterra e de Hesse recusaram-se a continuar se preocupando com essa frase. Todos os outros teólogos, com exceção dos de Bremen, confirmaram sua aprovação à censura. Todos os delegados holandeses também aprovaram. Os comissários disseram que eles não poderiam ratificar aquela sentença, mas eles relatá-la-iam às esferas superiores.

A seguir, segue-se o que Balcanqual escreveu ao embaixador britânico no dia seguinte. “Finalmente, pusemos um ponto final à questão dos cinco artigos, mas ninguém pode imaginar os problemas que tivemos. Os artifícios que foram utilizados (especialmente a astúcia do moderador) foram muito palpáveis, frustrando muito a nossa expectativa. A censura aos remonstrantes, que é uma coisa de grande importância, não nos foi comunicada, apenas durante a leitura da mesma; e o moderador esperava que todo o sínodo dissesse Amen, por medo de atrasar a partida dos comissários, que partiriam para a Haia. Foi muito doloroso obter a aprovação dos estrangeiros, mas nós nos recusamos a intrometer-nos. É triste que toda pessoa que não subscreva todos esses cânones seja privada de seu ofício. A crença em tantos artigos, sob pena de excomunhão, nunca foi prescrita, nem na igreja primitiva, nem em qualquer igreja reformada.

No final, a sentença não foi assinada pelos membros do sínodo, mas apenas pelos secretários Damman e Hommius. Não é difícil adivinhar a razão disso.

Alguns teólogos estrangeiros manifestaram uma grande inquietação com os procedimentos do sínodo contra os remonstrantes. Eles disseram: “Os remonstrantes foram injustiçados; eles não deveriam ter sido tratados dessa maneira. Nós éramos direcionados pelo moderador e o seu bando, que formaram um sínodo entre si e negociaram essas coisas em privado, o que eles intentavam trazer a bom termo”. Martinius disse a seus amigos: “Eu acredito, agora, no que São Gregório Nazianzo diz, que ele nunca havia visto qualquer concílio que tivesse resultado positivo; mas ao invés disso, aumentaram o mal, em vez de removê-lo. Eu declaro, assim como aquele pai, que nunca mais ponho o pé em qualquer sínodo. Oh Dort! Dort! Quisera Deus que eu nunca o tivesse visto!” O mesmo teólogo, tendo encontrado um remonstrantes, disse-lhe: “O sínodo é uma mera farsa, na qual os políticos têm o papel principal”.

6 DE MAIO. O sínodo se reuniu pela manhã. Havia um grande número de pessoas. O moderador orou a Deus implorando que o trabalho daquele dia pudesse ter um êxito. Depois, os membros do sínodo foram à grande igreja, de dois a dois, com grande pompa e solenidade. O moderador então subiu ao púlpito e leu uma oração em latim, que durou cerca de meia hora. Ele louvou a Deus pela preservação e restauração da igreja. Ele acusou os remonstrantes de corromper sua doutrina. Ele mencionou os bons efeitos que o sínodo tinha produzido, e deu graças a Deus pela unanimidade daquela assembleia. Depois da oração, ele disse às pessoas que a assembleia solene daquele dia fora convocada para que pudessem ouvir a publicação dos cânones que o sínodo havia concordado unanimemente pela graça de Deus.

Depois, o secretário Damman subiu ao mesmo púlpito e leu o prefácio aos cânones e os decretos que tratavam do primeiro artigo dos remonstrantes. Em seguida, estando sem fôlego, ele cedeu seu lugar a seu colega Hommius, que leu os cânones sobre o segundo, terceiro e quarto artigos. E então, ficando rouco, ele desceu e Damman leu os cânones sobre o quinto artigo, e a conclusão. Leu também os nomes de todos os teólogos e anciãos que haviam subscrito os cânones; e um deles, ouvindo o seu nome, tirou o chapéu para mostrar-lhe a aprovação. Em seguida, Damman leu a sentença contra os remonstrantes, e a aprovação dos comissários, pelo qual eles testemunharam que tudo o que tinha sido lido fora fielmente relatado.

No mesmo dia, às seis horas da noite, os comissários leram aos ministros remonstrantes a sentença antes mencionada, e ordenaram-lhes que não saíssem da cidade. Episcopius respondeu aos comissários da seguinte maneira: “Isso é tudo, meus senhores? Bem, eu louvo a Deus e ao nosso Salvador Jesus Cristo, pois nos considerou dignos de sofrer este opróbrio por causa dele. Sabemos que agimos com boa consciência e não somos culpados dos crimes que nos foram imputados. Estamos muito felizes em saber por quem e pelo que somos condenados. Somos condenados pelos nossos inimigos declarados, como bem sabem. Somos condenados por ter constantemente mantido, por boca e por escrito, a doutrina agradável à piedade, e por opormo-nos a algumas opiniões que acreditamos ser prejudiciais à santidade. Cumprimos o nosso dever. É o suficiente para nós termos colocado a vela sobre o candelabro, na presença de vossa senhoria e do sínodo; se vocês não receberam a luz, não é nossa culpa. Vocês devem, no último dia, dar conta dos motivos pelos quais nos trataram dessa maneira. E desejamos que, naquele dia, vocês não sejam tratados como nós fomos. Em uma palavra, nós apelamos ao grande juiz que provará os vivos e os mortos, cujo julgamento será justo, e diante de quem nós, o sínodo, e vossas senhorias todos compareceremos. Quanto à ordem para não deixarmos a cidade, vamos consultar a Deus e a nossa consciência, e agiremos a este respeito, conforme pensamos que o nosso dever exige”.

A opinião dos teólogos sobre essa assembleia são amplamente diferentes. James Cappel, professor da Sedan, elogia a equidade dos pais do concílio de Dort. Peter Du Moulin, pastor da igreja reformada em Paris, diz que há muito tempo não havia uma assembleia eclesiástica mais santa, e mais útil para a igreja e que os remonstrantes estavam bastante desalentados à vista daquele venerável sínodo.

Outros falam o contrário. Lewis du Moulin, professor de história em Oxford, expressa-se assim: “Os conselhos antigos só se reuniam para fazer o que os imperadores e reis exigiram deles. Assim, o segundo conselho de Nice estabeleceu o culto às imagens, porque a imperatriz Irene desejava. Pelo contrário, seus sucessores, chamados Iconomachi, convocaram alguns conselhos para suprimir esse culto. Se os Estados Gerais das Províncias Unidas tivessem favorecido os remonstrantes, poderiam muito facilmente chamar o concílio de um sínodo arminiano. Os pais desse conselho eram tanto juízes quanto parte interessada; e consequentemente, os arminianos tiveram que necessariamente enfrentar esse tribunal. Eles tinham, portanto, boas razões para não se submeterem à autoridade do sínodo de Dort”. O famoso Marco Antonio de Dominis diz, em uma carta a Joseph Hall: “Eu chamo você e seus colegas a testemunhar, quanto ao que vocês aprovaram no sínodo de Dort. Isso não é o que a igreja da Inglaterra prescreve em sua confissão de fé: isso é a doutrina de Calvino. Embora vocês tenham deixado esse sínodo astutamente, vocês concordaram com a condenação dos pobres remonstrantes, com sua excomunhão e expulsão. E, no entanto, eles não acreditavam em nada contrário à confissão de vossa igreja. Eles seguiram a doutrina pura da igreja primitiva. Os ingleses não deveriam ter-se metido nessa controvérsia, se não estivessem dispostos a julgá-la de acordo com a doutrina da igreja; pois eles devem ao menos tolerar todas as doutrinas católicas que não sejam incompatíveis com sua confissão de fé. Eu dei esse conselho ao Dr. Goad, seu sucessor; mas ele também aprovou os erros e a severidade dos calvinistas. O sínodo agiu com vistas mundanas: seu principal objetivo era evitar que o partido de Barnevelt fosse apoiado pelos remonstrantes e prevalecesse sobre a facção oposta”.

Em junho, os remonstrantes de algumas cidades da Holanda apresentaram várias petições aos governo dessa província, solicitando o exercício público de sua religião. Em algumas outras cidades, os remonstrantes reuniram-se em privado. O tribunal da Holanda publicou um comunicado contra tais reuniões. E o comitê dos estados ordenou que todo mundo se conformasse ao julgamento do sínodo.

Logo depois, uma carta de consolo, dirigida às igrejas dos remonstrantes, foi espalhada por toda a província. Vou colocar algumas passagens dela:

“A doutrina do evangelho está agora poluída pelos velhos erros dos maniqueus. Somos ensinados que Deus criou um homem para a salvação, e outro para a condenação, por uma vontade soberana; ou pelo menos, que imediatamente após o seu nascimento, ele determina se eles devem ser salvos, ou condenados. Que o que quer que aconteça, bem ou mal, assassinatos, adultérios e outras coisas, são pré-ordenadas, e acontecem necessariamente. Que a queda de Adão foi decretada; e até mesmo que ele foi criado para cair; que os eleitos são escolhidos sem qualquer consideração a sua fé, e os reprovados são rejeitados sem considerar a sua incredulidade. Que os eleitos são convertidos por um poder irresistível, e os réprobos não podem ser convertidos, porque Deus não lhes concede graça suficiente. Que Deus deseja a salvação de todos os homens pela sua vontade revelada e a salvação de poucas pessoas por sua vontade secreta: que Cristo derramou seu precioso sangue apenas para um pequeno número de homens, e não pelos pecados do mundo inteiro; os eleitos não podem cair da graça salvadora independente dos pecados que cometem, nem perder a fé inteiramente, embora seus pecados sejam sempre tão grandes e enormes: que um homem que for eleito sempre perseverará na fé, e que no caso de cair em algum grande pecado, ele não pode morrer enquanto persiste nesse pecado, e Deus deve necessariamente trabalhar sua conversão antes de sua morte”. “Alguns desses erros foram aprovados pelo sínodo de Dort; outros foram tratados em silêncio por serem muito odiosos, contudo, eles fizeram com que que muitos ensinassem essas abominações e as espalhassem entre o povo. Esforços também foram usados para suavizar alguns artigos rígidos e escandalosos, mas elas próprias foram preservadas, para ludibriar melhor o vulgar.

Quem examina atentamente os cânones do sínodo, observará facilmente que esta assembleia estabelece, por toda parte, a eleição absoluta de um homem e a reprovação absoluta de outro. Queridos irmãos, se vocês creem que Deus é misericordioso, vocês não podem manter, sem blasfêmia, que ele criou a maior parte da humanidade para destruí-los; ou, como o sínodo o expressa, que ele predestinou à condenação, ou rejeitou, a maioria daqueles que caíram em Adão, sem lhes permitir ter qualquer parte na salvação que Cristo adquiriu para os homens. Se você crê que Deus é sábio, você não pode acreditar que ele criou homens para torná-los infelizes para sempre. Se você crê que Deus é justo, você poderia imaginar que ele castiga os homens recusando-se a salvá-los, desconsiderando totalmente os seus pecados e incredulidade? Por último, se você crê que ele é sincero, você acreditaria que ele oferece salvação a alguns homens exteriormente e aparentemente, sem qualquer desejo de salvá-los pela sua vontade interna e secreta? É, portanto, verdade que aqueles que ensinam tal doutrina mudam a bondade de Deus em crueldade, sua sabedoria em estupidez, sua justiça em injustiça e sua sinceridade em hipocrisia. Os cristãos não devem perseguir; mas os nossos adversários introduziram a perseguição, privando os nossos ministros dos seus bens, expulsando-os do seu país e proibindo o exercício da nossa religião. Eles nos perseguem, empregando contra nós todos os tipos de oficiais civis e militares, oficiais de justiça, sargentos, soldados e vigias, e levantando a multidão contra nós. O banimento injusto daqueles que foram expulsos do país, como pobre-coitados que não merecem respirar, excede todas as outras severidades.

Nossos adversários violam o direito das nações, e a fé pública, em virtude da qual os que são convocados a um sínodo, devem esperar ser protegidos por ele; pois se não lhes fosse permitido voltar para casa, alguém apareceria diante de tais assembleias? O conselho de Constança será sempre infame por reter e queimar John Huss, que foi lá com uma conduta segura. O concílio de Trento, mais justo e equitativo que o sínodo de Dort, concedeu aos protestantes uma conduta segura, e não quebrou sua promessa aos que foram a essa assembleia. Exceto o concílio de Constância, não há nenhum exemplo de um procedimento tão escandaloso como o do sínodo de Dort. Quinze ministros foram detidos como prisioneiros, durante sete meses, sem que lhes permitissem ver suas esposas e parentes; e após a conclusão do sínodo, foram banidos, sem poder falar com suas esposas e amigos. Que escândalo para as Províncias Unidas violar uma conduta segura. O Espírito Santo não presidiu aquele sínodo, mas Bogerman, um homem cheio de ressentimento e amargura que sustentava que os hereges deveriam ser condenados à morte. Depois de uma leitura pública da sentença contra os remonstrantes na grande igreja, houve uma festa magnífica. A trombeta soou: o vinho do Reno foi bebido abundantemente: todos os pais do concílio estavam cheios de alegria mundana. Os apóstolos realizaram um concílio; mas não terminou com festas. Afinal, os membros do sínodo de Dort eram apenas homens sujeitos ao erro, governados pelos comissários dos estados, os quais não fizeram decretos senão os que lhes eram aceitáveis. Eles agiram em todos os seus procedimentos por meras opiniões políticas, e não por um princípio de consciência ou de acordo com a palavra de Deus. Eles tinham uma mente merecer um belo presente. E, de fato, as medalhas de ouro foram dadas mais tarde aos teólogos estrangeiros, e as de prata aos nativos. Houve algum outro sínodo ou concílio em que medalhas foram distribuídas? Seus cânones são parcialmente falsos e parcialmente falaciosos. Alguns são verdadeiros e os remonstrantes poderiam subscrevê-los, bem como seus adversários. Passaram em silêncio as rígidas doutrinas de Calvino, Beza e Gomarus, sem condená-las; e eles permitiram que essas abomináveis opiniões ainda permanecessem na igreja de Deus.

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[1] O artigo publicado na The Methodist Magazine apresenta apenas a versão em que os remonstrantes afirmam a possibilidade de cair da graça. O artigo original foi extraído do relato base para esse artigo: BRANDT, Gerard. The history of the reformation and other ecclesiastical transactions in and about Low-Countries. London, 1720-23, vol. 2, book XIX, p.75.