Por que a fé precede a regeneração?

(1) Primeiramente, porque as Escrituras afirmam (At 2:38; Jo 3.1-16; Rm 5.18; Cl 2.12, 13)[1].

(2) Em segundo lugar, porque existe um aspecto judicial que é prioritário ao aspecto moral. Antes de Deus poder operar a salvação em nós (regeneração e santificação), ele precisa fazer algo por nós (justificação). Para que um Deus justo opere a salvação no indivíduo, não pode haver culpa sobre o mesmo. Ele não toma o culpado por inocente. Deus não opera a salvação em alguém que ainda é alvo de sua ira. Ele primeiro justifica o pecador, satisfazendo a condição judicial que o impede de operar a salvação no indivíduo. Se a regeneração é posterior à justificação, ela é igualmente posterior à fé, visto que somos justificados pela fé.

(3) Em terceiro lugar, porque a santificação tem início na regeneração. Por isso, se a regeneração for colocada antes da fé, a santificação também ocorreria antes da justificação, o que implicaria na justificação através da santificação (ou justificação por obras). Portanto, a fé precede logicamente a regeneração.

(4) Em quarto lugar, porque esta é uma ordem lógica. Se o que nos causou morte espiritual foi o pecado, então o problema do pecado deve ser resolvido antes de qualquer outra coisa. Para acabar com a morte espiritual, é preciso atacar a sua causa, o pecado. E ataca-se o pecado removendo-o, na justificação. Portanto, a justificação vem antes da regeneração.

(5) Em quinto lugar, é inegável que a fé precede a salvação. E como a regeneração é um componente da salvação, então a fé precede a regeneração.

(6) Em sexto lugar, porque a fé é o meio pelo qual nos apropriamos dos benefícios da expiação. Tudo que recebemos vem pela fé. Sendo assim, a regeneração vem por meio da fé.

(7) Em sétimo lugar,  porque Cristo é a fonte da vida espiritual. Somos unidos a ele por meio da fé. A fé, portanto, deve preceder a vida espiritual (regeneração). Caso contrário, caímos na aberração teológica de afirmar que alguém recebe vida espiritual aparte da fonte da vida.

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Compilado e editado a partir dos posts do irmão Paulo Cesar Antunes em arminianismo.com.

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[1] At 2:38: “Arrependei-vos e sede batizados, cada um de vós, em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos vossos pecados. E recebereis o dom do Espírito Santo”. Esse versículo indica o momento no qual o Espírito entra na vida do indivíduo, e esse momento é posterior ao arrependimento (conversão).

Jo 3.1-16: Nesse trecho, Jesus explica a Nicodemos como alguém nasce de novo. Ele cita o episódio da serpente no deserto. O paralelo é óbvio. Assim como cada um que olhava para a serpente que Moisés levantou recebia vida, da mesma forma cada um que crê em Cristo recebe vida espiritual.

Rm 5.18: Assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida. O texto na verdade está dizendo “justificação que dá vida”. Um pouco de Calvino pode ser útil: “Segundo o meu critério, justificação para a vida, ou justificação vivificante, significa o perdão que nos restaura à vida. Nossa esperança de salvação é oriunda do fato de Deus nos ser propício, e não podemos ser aceitos por ele a menos que sejamos justos. Portanto, a vida tem sua origem na justificação. (Calvino, Romanos, 203).

Cl 2.12,13: Sepultados com ele no batismo, nele também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas. Há uma relação causal entre “vivificou juntamente com ele” e “perdoando-vos todas as ofensas”. É porque ele perdoou as nossas ofensas que somos vivificados. Como diz o Novo Comentário da Bíblia, “O perdão (13) é a grande bênção inicial que nos é outorgada em Cristo” (p. 1292). Considerando que o perdão acontece na justificação, e a justificação se dá pela fé, a fé deve preceder a regeneração, o ser vivificado juntamente com Cristo. E, ainda, o versículo 12 nos diz que ressuscitamos pela fé no poder de Deus. Paulo aqui está explicando como acontece a “circuncisão de Cristo” (v. 11). Ele então usa a figura do batismo. Ele fala não do rito em si, mas o que ele representa. Fomos sepultados com ele no batismo e a ressurreição de Cristo é também a nossa, e essa acontece pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dentre os mortos. O significado é que, quando estávamos mortos em nossos pecados, ao crermos no poder de Deus que ressuscitou Cristo dos mortos, e tendo os nossos pecados perdoados, somos também vivificados.