Abaixo, segue o que o calvinista Millard Erickson tem a dizer sobre fé e regeneração dentro da ordo salutis.

A posição majoritariamente adotada entre calvinistas é que a regeneração precede a fé, no entanto, ela não é unânime. Para Erickson, o fato da regeneração preceder a fé é perfeitamente lógico, mas não bíblico.

Na visão de Erickson, a escritura exige fé para salvação; e, como a regeneração é um benefício da salvação, ela não pode anteceder à fé (de fato, receber a salvação sem fé parece contradizer totalmente o princípio geral do novo testamento, que é “salvação mediante a fé”). Para ele, o homem chega à fé através do “chamado eficaz”, que é diferente da regeneração, o qual “torna a conversão do indivíduo possível e certa”. Somente depois da conversão (fé e arrependimento) o indivíduo recebe o novo nascimento.

Millard Erickson define “chamado eficaz” (ou chamado especial) da seguinte maneira:

O chamado especial é, em grande medida, a obra de iluminação do Espírito Santo, permitindo que o destinatário compreenda o verdadeiro significado do evangelho. Envolve também a obra de convicção do Espírito Santo, da qual Jesus falou em João 16: 8-10. Esta operação do Espírito é necessária porque a depravação característica de todos os seres humanos os impede de agarrar a verdade revelada de Deus. (Christian Theology, p. 943)

Assim, Erickson monta a sua ordem lógica da seguinte forma: Chamado Eficaz – Conversão (fé e arrependimento) – Regeneração.

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Com a palavra, Millard Erickson (Christian Theology, p. 944-946):

Não estamos falando aqui de sucessão temporal. Conversão e novo nascimento ocorrem simultaneamente. Em vez disso, a questão é se alguém é convertido por causa da obra divina de regeneração interna, ou se Deus regenera o indivíduo por causa de seu arrependimento e fé. Devemos reconhecer que, de um ponto de vista lógico, a posição calvinista usual faz muito sentido. Se nós seres humanos pecadores somos incapazes de crer e responder ao evangelho de Deus sem algum trabalho especial dele dentro de nós, como pode alguém, mesmo um eleito, crer a menos que seja primeiro capacitado a crer através da regeneração? Dizer que a conversão é anterior à regeneração parece ser uma negação da depravação total.

No entanto, a evidência bíblica favorece a posição de que a conversão é logicamente anterior à regeneração. Vários apelos para responder ao evangelho implicam que a conversão resulta em regeneração. Entre eles está a resposta de Paulo ao carcereiro filipense (estamos aqui assumindo que a regeneração é parte do processo de salvação): “Crê no Senhor Jesus, e serás salvo, tu e a tua casa” (Atos 16:31). Pedro faz uma declaração semelhante em seu sermão de Pentecostes: “Arrependei-vos e sede batizados, cada um de vós, em nome de Jesus Cristo, para o perdão dos vossos pecados. E recebereis o dom do Espírito Santo” (Atos 2:38). Este parece ser o padrão em todo o Novo Testamento. Mesmo John Murray, que considera inequivocamente a regeneração como antecedente, parece negar sua própria posição quando diz: “A fé da qual estamos falando agora não é a crença de que fomos salvos, mas a confiança em Cristo para que possamos ser salvos”. A menos que Murray não considere a regeneração como parte do processo de salvação, ele parece estar dizendo que a fé é instrumental para a regeneração e, portanto, logicamente antecedente a ela.

A conclusão aqui, então, é que Deus regenera aqueles que se arrependem e creem. Mas essa conclusão parece inconsistente com a doutrina da inabilidade total. Estaremos divididos entre Escritura e lógica neste ponto? Há uma saída, que é distinguir entre o chamado especial e eficaz de Deus, por um lado, e a regeneração, por outro. Embora ninguém seja capaz de responder ao chamado geral do evangelho, no caso dos eleitos Deus trabalha intensamente através de um chamado especial para que eles respondam com arrependimento e fé. Como resultado dessa conversão, Deus os regenera. O chamado especial é simplesmente um trabalho intenso e eficaz pelo Espírito Santo. Ele não é a transformação completa que constitui a regeneração, mas torna a conversão do indivíduo possível e certa. Assim, a ordem lógica dos aspectos iniciais da salvação é: chamada especial – conversão – regeneração.