Paul Copan

“A regeneração precede a fé”. Esta afirmação é uma daquelas que muitos na tradição reformada tomam como axiomática. Nós devemos “nascer de novo” a fim de “entrar no reino dos céus” (Jo 3.3). Afinal, se nós estamos “mortos em nossos delitos e pecados” nós precisamos ser “trazidos à vida” a fim de arrepender-nos, sermos “vivificados” e “salvos” (Ef 2:1-5; cp. Cl 2:13). Nós todos sabemos que pessoas espiritualmente mortas não podem se arrepender e ser salvas. A regeneração precede a fé!

Eu discordo desse axioma. Embora alguns de meus irmãos e irmãs não concordem comigo, deixe-me oferecer algumas razões para isso.

Primeiro, um morto espiritual ainda pode receber graças e influência divina, as quais podem levar à salvação/regeneração. Hebreus 6:4-6 refere-se “aqueles que foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do mundo vindouro”, mas que, no final, não herdaram a salvação. Para muitos teólogos — tanto Reformados como não-Reformados — essas pessoas nunca foram salvas de fato. Mas mesmo assim, eles ainda foram iluminados, provaram o dom celestial, se fizeram participantes do Espírito Santo e provaram a palavra e o poder de Deus. Se me é permitido dizê-lo: Nada mal para uma pessoa espiritualmente morta. Assim, se é possível para alguém espiritualmente morto ter esse tipo de experiência “avivadora”, parece forte demais dizer que aqueles que estão afastados de Deus — os espiritualmente impotentes — serão totalmente indiferentes à influência divina e à graças de todos os tipos. Deus não poderia usar tais influências para despertar e convencer os incrédulos, mesmo se eles acabam “sempre resistindo ao Espírito Santo”? (At 7:51)

Segundo, como eu tenho indicado, esse axioma (regeneração precede a fé) não é evidente na Escritura. Na verdade, a fé precede a regeneração. Eu vou falar um pouco sobre isso, mas primeiro alguns rápidos esclarecimentos: (a) A fé não precede o convite genuíno e universal para as pessoas participarem em seu reino: “Ide, pois, às saídas dos caminhos, e convidai para as bodas a todos os que encontrardes” (Mt 22:9). (b) Nem essa fé precede a graça inicial que capacita as pessoas a responderem ao comando divino universal dado a todos sem exceção para se arrependerem: “[Deus] anuncia agora a todos os homens, e em todo o lugar, que se arrependam” (At 17:30). É claro, algumas pessoas podem resistir, extinguir e entristecer o Espirito Santo. Elas podem repudiar a graça iniciadora que torna possível o cumprimento da ordem divina para arrependimento: “Era necessário que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios” (At 13:46).

Antes de analisarmos alguns textos da Escritura, vale a pena mencionarmos aqui a ordo salutis — a “ordem da salvação”. Teólogos Reformados tem particular interesse em referir-se à sequência ou ordem lógica da salvação de Deus. Aqui está o exemplo de R.C. Sproul: [1]

Queda – Eleição – Chamada externa – União com Cristo – Chamada Interna – Regeneração – Fé – Arrependimento – Justificação – Adoção – Santificação – Segurança – Glorificação

Ao passo que eu não tenho problemas com sistematizações per se, eu tenho minhas dúvidas sobre uma ordenação tão específica.  O estudioso do Novo Testamento R.T. France — uns dos meus comentaristas favoritos — sugere que essas tentativas tão precisas de elaborar uma ordo salutis são frequentemente artificiais e enganosas.[2]  Eu concordo. Enquanto a “queda” obviamente precede a “fé” ou a “glorificação”, nós devemos ser cuidadosos ao ordenar tão rigidamente a “regeneração”, “justificação”, “adoção”, e até a “santificação”. Por exemplo, muito embora tenhamos sido “justificados pela fé” (Rm 5:1), nós ainda esperamos uma justificação futura (Gl 5:5: “a esperança da justiça/justificação”). E eu pergunto: Será que podemos insistir confiante e dogmaticamente que a categoria relacional “adoção” é logicamente subsequente à categoria forense da “justificação”? Eu seria um pouco hesitante — especialmente porque a adoção e a justificação têm uma dimensão futura também (Rm 8:23; Gl 5:5). Deveríamos nos perguntar quais delas é logicamente anterior no estado futuro? Ademais, muito embora Abraão tenha sido “justificado” ou “declarado justo” por Deus em Gênesis 15:6, ele não tinha respondido obedientemente pela fé em Deus o chamado anterior de deixar sua terra e ir para um lugar que Deus o mostraria? (Gn 12:1, 4; cp. Hb 11:8)

Além disso, embora muitos teólogos refiram-se à “santificação” como sendo um processo, alguns estudiosos evangélicos têm questionado isso ao afirmar que ela é um status conferido aos crentes na conversão.[3] Eu não vou entrar em detalhes aqui, mas certamente é claro a partir Escritura que, como povo de Deus, somos chamados “santos” — santos, santificados (por exemplo, 1 Cr 1:2). Na verdade, veja 1 Coríntios 6:11, onde o evento passado de sermos “lavados” ocorre ao lado de termos sido “justificados” e “santificados”.

Até mesmo o teólogo Reformado Louis Berkhof observou que a Palavra de Deus “não fornece explicitamente ao crente uma ordem completa da salvação”.[4] Outro teólogo Reformado, Millard Erickson, rejeita o próprio axioma de que a “regeneração precede a fé”. Ele opta, em vez disso, pela prioridade do chamado eficaz de Deus (um trabalho intensivo e eficaz do Espírito), que é anterior à regeneração (que vem a completar o trabalho de início do Espírito).[5] Parece-me que a Escritura não é tão clara sobre a ordem específica dos detalhes salvíficos, e assim devemos ser cautelosos sobre o excesso de dogmatizar. Naturalmente, a compreensão de uma ordem básica de salvação é importante para nós como “meros cristãos”: que estamos caídos, que precisamos da iniciativa da graça de Deus, que devemos receber essa graça e nos arrepender, e que, com a ajuda de Deus, nós perseveramos com vistas à glorificação final.

Mas quais os textos da Escritura vão contra a ideia de que a “regeneração precede a fé”? Os seguintes textos indicam que a fé precede a regeneração e o início da salvação (cp. Ef 2:5, onde ser “vivificados” está conectado com ter sido “salvos”):

Lucas 8:12 “E os que estão junto do caminho, estes são os que ouvem; depois vem o diabo, e tira-lhes do coração a palavra, para que não se salvem, crendo”. (Fé/crer resulta em salvação)

João 1:12 “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome”. (Fé/crer precede a salvação)

João 3:15,16 “Para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Fé/crer precede a regeneração)

Atos 2:38 “E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”. (Veja uma passagem similar em Atos 3:19-21: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do Senhor [regeneração?], E envie ele a Jesus Cristo, que já dantes vos foi pregado. O qual convém que o céu contenha até aos tempos da restauração de tudo, dos quais Deus falou pela boca de todos os seus santos profetas, desde o princípio”. (Arrependimento/conversão [que inclui fé] levam à regeneração — receber o Espírito)

Atos 11:18 “E, ouvindo estas coisas, apaziguaram-se, e glorificaram a Deus, dizendo: Na verdade até aos gentios deu Deus o arrependimento para a vida”. (Arrependimento leva à regeneração)

Atos 16:31 “E eles disseram: Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa.” (Fé/crer leva à salvação)

Romanos 10:9,10 “A saber: Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação”. (Fé/crer resulta em salvação)

1 Coríntios 1:21 “Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação”. (Fé/crer precede a salvação)

Eu poderia acrescentar outros textos, mas estou certo que esses são suficientes. E para um contexto um pouco mais teológico dessa nossa discussão, veja o capítulo 6 do meu livro An Introduction to Biblical Ethics: Walking in the Way of Wisdom (IVP Academic). Mas deixe-me oferecer algumas observações finais para colocar as coisas em perspectiva:

Primeiro, Deus deve iniciar a salvação. Ao fazer isso, Deus rotineiramente exerce influências genuínas salvificamente-dirigidas de todos os tipos, mesmo que elas sejam rejeitadas no final. Porque Deus deve iniciar a salvação, podemos rejeitar o Pelagianismo — que, por si mesmos, os seres humanos têm a capacidade de viver sem pecado. Rejeitamos também o semipelagianismo — que os seres humanos podem, sem ajuda divina, dar o primeiro passo em direção a Deus, que, em seguida, responde a nós; este ponto de vista, formulado por João Cassiano, foi condenado no Conselho de Orange na França em 529. De fato, vemos repetidamente por toda a Escritura que a iniciativa de Deus em oferecer livremente a salvação é resistível (por exemplo, o Salmo 81:10-13; Is 5:1-7).

Em segundo lugar, devemos ter cuidado com o excesso de dogmatizar uma ordem da salvação, quando as Escrituras são menos do que claras em um certo número delas. Vamos nos esforçar para manter o principal como principal.

Em terceiro lugar, como crentes chamados a amar uns aos outros, devemos evitar castigar os outros com o rótulo de “semi-Pelagianos” por não adotarem uma visão reformada de que a “regeneração precede a fé.” Se fizéssemos isso, teríamos de condenar teólogos reformados respeitados como Millard Erickson , que reconhecem que as Escrituras não ensinam isso. Mas, além disso, devemos apresentar um espírito de caridade para aqueles com quem discordamos sobre questões secundárias e terciárias: “No essencial, unidade, no que não é essencial, liberdade; em todas as coisas, a caridade. “

Tradução: Samuel Coutinho
Fonte: http://credohouse.org/blog/does-regeneration-precede-faith-apparently-not

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[1] Veja o capítulo 5 em Eleitos de Deus de R.C. Sproul (Wheaton, IL: Tyndale, 1994).

[2] Veja R.T. France, “Conversion in the New Testament,” Evangelical Quarterly 65 (1993): 291-310.

[3] Por exemplo, David Peterson, Possessed by God: A New Testament Theology of Sanctification and Holiness (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 2001).

[4] Louis Berkhof, Systematic Theology (Grand Rapids:  Eerdmans, 1941), 416.

[5] Millard J. Erickson, Christian Theology, 2 ed. (Grand Rapids: Baker, 2004), 901-78.