Samuel Paulo Coutinho

Essa série de artigos trata sobre as implicações lógicas do calvinismo. Veja abaixo o outro artigo da série:

Implicações do calvinismo: [1] Deus é o autor do pecado!

Se a existência do pecado e do mal é complexa para o cristianismo tradicional, quanto mais para o calvinismo. No calvinismo, Deus não apenas permitiu o pecado, mas sim o decretou.

A questão que surge dessa proposta é: Qual razão Deus teria para decretar o pecado? Veremos que a resposta calvinista implica que Deus é menos soberano do que poderia ser. Colocando de outra forma, o calvinismo afeta diretamente a asseidade divina, tornando Deus um ser dependente de suas criaturas e do pecado.

Em tempo, a implicação lógica a que este texto se refere, embora derivada do calvinismo, não é mantida por nenhum calvinista que eu conheça. Entretanto, isso não significa que ela não seja resultado direto das proposições sustentadas por pelo menos uma ala importante do calvinismo, conforme veremos a seguir.

Implicação 2: Deus é dependente do pecado!

O raciocínio calvinista é o seguinte:

(1) Deus é a única entidade determinativa do universo
(2) Ambos os mundos, com e sem pecado, são viáveis para Deus
(3) O objetivo de Deus (a sua essência) é glorificar a si mesmo
(4) Um mundo com pecado traz mais glória para Deus

Portanto,

(5) Deus criou um mundo com pecado porque esse é o mundo em que Deus é mais glorificado

A questão crucial desse raciocínio é que se um mundo com pecado realmente glorifica mais a Deus, e se a essência de Deus o leva a buscar de forma máxima sua glorificação, então Deus depende do pecado de suas criaturas para realmente alcançar seu objetivo; Deus depende do pecado para ser realmente Deus.

Poderíamos então perceber uma segunda conclusão com base nas premissas (3) e (4):

(6) Um mundo com pecado é exigido pela essência de Deus.

Vamos verificar cada uma das premissas e então confirmar que o entendimento calvinista resulta nesse absurdo teológico.

Premissa (1): Deus é a única entidade determinativa do universo

A Confissão de Fé de Westminster no capítulo III declara: “Desde toda a eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria vontade, ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece …”. Nenhum calvinista objetará contrariamente à ideia de que Deus determina tudo o que acontece, por isso, não precisamos nos deter aqui.

Premissa (2): Ambos os mundos, com e sem pecado, são viáveis para Deus

Um mundo com pecado nós não temos dúvidas de que Deus poderia criar. No entanto, Ele poderia ter criado um mundo sem pecado?

Sendo a única força determinativa do universo, não há nenhum impedimento lógico para Deus criar um mundo sem pecado. Ele poderia simplesmente decretar que todas as criaturas fizessem somente o bem e fossem todas salvas. Esse seria um mundo viável para Deus. Se algum calvinista negar tal possibilidade, visto que Deus é a única entidade determinativa existente, então teria de negar o livre arbítrio de Deus, e isso, poucas pessoas estão dispostas a fazer.

Obviamente, isso não seria verdade em um mundo com criaturas livres, visto que é logicamente impossível forçar alguém a executar algo por livre e espontânea vontade. Neste caso, dado que Deus decidiu criar seres dotados de livre arbítrio, é provável que um mundo sem pecado não fosse uma opção viável para Deus.

Premissa 3: O objetivo de Deus (a sua essência) é glorificar a si mesmo

A teologia calvinista valoriza muito a vontade que Deus tem de glorificar a si mesmo. Piper argumenta que o “objetivo de Deus a cada fase da criação e salvação é magnificar a Sua glória”. [1] Ele também diz que “o fim principal de Deus é glorificar a si mesmo”. [2] Glorificar a si mesmo é uma propriedade da natureza de Deus. [3] O objetivo final de Deus é Ele próprio. [4] MacCall observa corretamente que para Piper o “bem maior, então, é este: é Deus sendo maximamente glorificado…”[5], e se Deus realmente procura o bem maior, então ele buscará maximizar sua própria glória.

Premissa 4: Um mundo com pecado traz mais glória para Deus

Se um mundo sem pecado era viável para Deus, por que Ele criou um mundo com pecado? À exceção daqueles que apelam ao mistério, a resposta calvinista a essa pergunta é muito interessante. Jonathan Edwards explica:

… é necessário que a aterradora majestade de Deus, sua autoridade e terrível grandeza, justiça e santidade devam ser manifestas. Mas não poderia ser assim , a menos que o pecado e a condenação tivessem sido decretados; ou o fulgor da glória de Deus seria por demais imperfeito, tanto porque essas partes da glória divina não resplandeceriam tanto quanto as outras, e também porque a glória de sua bondade, amor, e santidade seria apática sem elas; não, elas ilustrariam de forma pobre seu fulgor. [6]

Lorraine Boettner, seguindo a mesma linha, declara:

O pecado… é permitido a fim de que a misericórdia de Deus possa ser mostrada em seu perdão, e que Sua justiça possa ser mostrada em sua punição. Sua entrada é o resultado de um projeto estabelecido que Deus formou na eternidade, e através do qual Ele planejou revelar-se a Si mesmo para Suas criaturas racionais como completo e totalmente iluminado em todas as perfeições concebíveis. [7]

John Piper argumenta que

A glória de Deus resplandece mais brilhantemente, mais plenamente e mais belamente na manifestação da glória de sua graça. […] Deus, desde a eternidade, decretou mostrar a grandeza da glória de sua graça para o deleite de suas criaturas, e ele nos revelou que este é o objetivo final e a explicação final de por que existe pecado e por que existe sofrimento… [8]

O calvinista Douglas Wilson certa vez publicou em seu blog:

Em um mundo sem pecado, dois dos mais gloriosos atributos de Deus — Sua justiça e Sua misericórdia — não seriam exibidos. Isso, obviamente, seria horrível…Em um mundo sem pecado e mal, pelo menos dois dos atributos de Deus não seriam revelados e manifestos, os quais são ira e misericórdia. Uma vez que isso é obviamente intolerável, Deus determinou controlar nossos interesses da maneira que Ele fez. [9]

Parece, então, que um mundo sem pecado seria intolerável e impensável. O pecado permite que todos os atributos de Deus sejam revelados igualmente e de forma perfeita. Doutra sorte, caso não tivesse a quem punir, a quem demonstrar misericórdia, e contra quem se irar, seus atributos seriam demonstrados de forma desigual, sem brilho, imperfeita, apática e pobre. [10]

Conclusão (5): Deus criou um mundo com pecado porque esse é o mundo em que Deus é mais glorificado

Os calvinistas concordam com essa conclusão. Deus, buscando manifestar todos os seus atributos de forma igual e perfeita, visto que isso lhe traz mais glória, decretou criar um mundo com pecado. Dizendo de outra forma, Deus decretou o pecado para maximizar sua glória.

Conclusão (6):  Um mundo com pecado é exigido pela essência de Deus.

Se o objetivo final de Deus é glorificar maximamente a si mesmo, e o que lhe traz mais glória é manifestar seus atributos de forma igual e perfeita, e para isso o pecado é necessário, então o pecado se torna uma necessidade exigida pela própria essência de Deus.

Edwards reconhece que “é necessário que a aterradora majestade de Deus, sua autoridade e terrível grandeza, justiça e santidade devam ser manifestas”. [11] Se essa manifestação era realmente necessária, então o pecado era necessário e Deus não poderia não ter criado o pecado. Deus estava obrigado por sua própria natureza a criar o pecado. Deus dependia de algo fora dele (ou seja, o pecado de suas criaturas) para satisfazer uma necessidade de sua natureza. Deus dependia do pecado para alcançar seu objetivo de glorificar maximamente a si mesmo.

Essa implicação acaba com a soberania de Deus, visto que ele se torna não menos do que um ser dependente do homem. “Sem o mundo, então, Deus não seria Deus da mesma forma; sua glória seria menos do que ela é agora”. [12] Sem a criação e o pecado, Deus não seria Deus.

Robin Phillips resume bem a implicação do pensamento calvinista:

“Se o mal é necessário para que a bondade de Deus seja manifestada, e se a manifestação de tal bondade é uma parte crucial do que significa para Deus ser Senhor (visto que, de outra forma, o ódio de Deus pelo pecado não poderia encontrar um escape), então segue-se que a criação é necessária para Deus ser Deus, como a própria criação é uma pré-condição para o mal. Nesse caso, Deus não seria Deus antes da criação. Logo, a criação não é um excesso da abundância de Deus, mas algo que era necessário a realização de um determinado aspecto de Seu caráter.” [13]

Um calvinista poderia objetar que o propósito de Deus não é ser “maximamente” glorificado, mas apenas ser glorificado. No entanto, essa resposta anularia toda a lógica calvinista sobre o motivo de Deus para decretar o pecado, pois se Deus não busca sua máxima glorificação, então ele poderia ter se contentado com um mundo sem pecado, onde ele seria glorificado de uma forma mínima (não máxima). Essa resposta demandaria uma nova explicação dos motivos de Deus em decretar o pecado.

O próprio John Piper tentou argumentar contra essa conclusão várias vezes [14], no entanto, não fez mais do que afirmar a liberdade de Deus e sua autossuficiência. Ele sequer tocou o coração da questão.

Essa é a segunda implicação lógica do calvinismo, a saber, Deus é dependente do pecado! Tenho certeza que meus irmãos calvinistas concordarão que isso vai contra o que a palavra nos ensina. Por isso, espero que o acúmulo das terríveis implicações derivadas do pensamento calvinista leve os leitores a repensarem se o calvinismo realmente é o sistema que melhor representa a verdade das escrituras.

Até a próxima.

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[1] PIPER, John. Plena Satisfação em Deus: Deus glorificado e a alma satisfeita. Tradução: Juliana G. Duarte Portella. Editora Fiel: 2009, p. 22.

[2] PIPER, John. Disponível em: http://www.monergismo.com/textos/gloria_deus/deus_por_nos_ele_mesmo_piper.htm Acesso em: 2/2/2017.

[3] PIPER, John. God’s passion for his glory: Living the Vision of Jonathan Edwards. Crossway Books: Illinois, 1998. p. 151.

[4] Ibid., p. 153.

[5] MACCALL, Thomas. I believe in divine sovereignty. Disponível em: http://evangelicalarminians.org/thomas-mccall-i-believe-in-divine-sovereignty/ Acesso em: 01/03/2017.

[6] EDWARDS, Jonathan. Sobre a existência do mal. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/problema_do_mal/existencia_mal_edwards.htm> Acesso em: 20/02/2017.

[7] Lorraine Boettner, citado em OLSON, Roger. Contra o calvinismo. Tradução de Wellington Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013. p. 145.

[8] PIPER, John. The Suffering of Christ and the Sovereignty of God. In: Suffering and the Sovereignty of God, p. 81.  Disponível em: https://document.desiringgod.org/suffering-and-the-sovereignty-of-god-en.pdf?1439242069 Acesso em: 21/02/2017.

[9] Douglas Wilson, citado por Robin Phillips em Por que deixei de ser calvinista (parte 2): O calvinismo destrói a justiça de Deus. Disponível em: http://deusamouomundo.com/calvinismo/por-que-eu-deixei-de-ser-calvinista-parte-2-o-calvinismo-destroi-a-justica-de-deus/ Acesso em: 01/03/2017.

[10] Seguindo esse raciocínio, Piper, em seguida, pergunta: “Você consegue ver qual a implicação disso com respeito ao pecado e ao sofrimento no universo?” E ele mesmo responde algo chocante: “Deus ordena que aquilo que Ele odeia aconteça.” . PIPER, John. The Suffering of Christ and the Sovereignty of God. In: Suffering and the Sovereignty of God, p. 85.  Disponível em: https://document.desiringgod.org/suffering-and-the-sovereignty-of-god-en.pdf?1439242069 Acesso em: 21/02/2017.

[11] EDWARDS, Jonathan. Sobre a existência do mal. Disponível em: <http://www.monergismo.com/textos/problema_do_mal/existencia_mal_edwards.htm> Acesso em: 20/02/2017.

[12] OLSON, Roger. Contra o calvinismo. Tradução de Wellington Mariano. São Paulo: Editora Reflexão, 2013. p. 147.

[13] PHILLIPS, Robin. Por que deixei de ser calvinista (parte 2): O calvinismo destrói a justiça de Deus. Disponível em: http://deusamouomundo.com/calvinismo/por-que-eu-deixei-de-ser-calvinista-parte-2-o-calvinismo-destroi-a-justica-de-deus/ Acesso em: 01/03/2017.

[14] Ver John Piper, I Believe in Gods Self-Sufficiency A Response to Thomas McCall. Disponível em: http://cdn.desiringgod.org/pdf/articles/2008_trinj_piper.pdf Acesso em: 01/03/2017.