Samuel Coutinho

Sistemas teológicos são tentativas de organizar as proposições extraídas das escrituras a fim de explicá-las de modo racional e coerente. Eles servem para facilitar a compreensão bíblica e até resolver algumas contradições aparentes entre assuntos afins. Todos os sistemas teológicos tem seus problemas, principalmente pelo fato deles serem construções humanas, e por isso, falíveis. Todavia, há alguns sistemas que são tão problemáticos que deveriam ser rejeitados pela cristandade. Esses sistemas, ao invés de lançar luz sobre as escrituras, jogam mais confusão sobre elas.

Um desses sistemas extremamente problemáticos é o calvinismo. Ao invés de facilitar, ele acaba por complicar algumas coisas que antes pareciam tão simples e evidentes, e acaba por demandar novas explicações e novas sistematizações que seriam desnecessárias se ele não existisse. Por si só, isso deveria ser motivo suficiente para fazer todo calvinista considerar a opção de que seu sistema não representa adequadamente as afirmações da escritura. Ademais, há pelo menos uma boa alternativa a esse sistema. Uma alternativa ortodoxa, amparada pela exegese, mais antiga, amplamente apoiada pela cristandade e bem menos problemática.

As próximas postagens do site serão uma série de artigos nos quais eu pretendo mostrar que o calvinismo é uma opção extremamente ruim como sistema teológico. Para isso, eu vou mostrar algumas implicações necessárias do calvinismo que mais causam confusão do que compreensão; mais atrapalham do que ajudam; mais destoam do que fazem coro com a maioria histórica do cristianismo.

Muitos dos problemas que eu vou abordar não correspondem ao ensino oficial da principal corrente calvinista, no entanto, tais problemas são implicações necessárias do sistema calvinista, o que eu pretendo mostrar no decorrer das postagens.

Implicação 1: Deus é o autor do pecado!

Primeiro, o consenso cristão sobre a autoria do pecado é expresso nas palavras do famoso calvinista Michael Horton: “Deus não é o autor do pecado, uma vez que ele não é o seu causador ou o que o traz à tona”. [1] O próprio Calvino considerou essa conclusão (de que Deus é o autor do pecado) uma blasfêmia. [2]

A questão é que, ao contrário do que Michael Horton quer afirmar, o sistema calvinista acaba por implicar que Deus seja o autor do pecado. O próprio Horton reconhece que sobre esse ponto, “a teologia confessional reformada é obrigada a manter juntas duas teses aparentemente conflitantes: Deus decretou tudo o que vai acontecer, embora isso, de modo algum, infrinja na liberdade de suas criaturas”. [3] As teses aparentemente conflitantes de Horton são, na verdade, absolutamente conflitantes.

O argumento que mostra o primeiro problema do calvinismo é o seguinte:

(1) Deus predeterminou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece;
(2) o pecado acontece;

Portanto,

(3) Deus predeterminou livre e inalteravelmente o pecado.

A premissa (1) é um dos pressupostos filosóficos do calvinismo. Em palavras simples, tudo o que acontece, acontece porque foi predeterminado por Deus. Isso significa que Deus arquitetou todas as coisas em seus mínimos detalhes e garantiu que elas acontecessem de acordo com o seu projeto detalhado. Nada do que acontece tem outra origem senão a predeterminação de Deus. Os calvinistas costumam chamar isso de soberania divina. Veja a definição do calvinista Edwin Palmer:

Predeterminação significa o plano soberano de Deus, pelo qual Ele decide tudo o que está a acontecer em todo o universo. Nada neste mundo acontece por acaso. Deus está por trás de tudo. Ele decide e faz com que todas as coisas aconteçam. Ele não está sentado à margem pensando, e talvez temendo, o que vai acontecer a seguir. Não, Ele predeterminou tudo “segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11): o movimento de um dedo, a batida de um coração, o riso de uma menina, o erro de um datilógrafo – até mesmo o pecado. [4]

Muito bem, se o calvinista defende a premissa (1), e também não deve possuir nenhuma discordância quanto à premissa (2), de que o pecado acontece, segue-se a conclusão (3) de que Deus predeterminou o pecado de forma livre e inalterável.

O calvinista pode, a essa altura, insistir em afirmar que apesar de tudo estar determinado, o homem é livre e o pecado acontece por uma escolha do próprio homem; e que predeterminar o pecado não é o mesmo que ser o autor do pecado (ou que cometer o pecado). Ele pode apelar para categorias aristotélicas de causalidade primária e secundária, ou seja, a causa primária (Deus) não é responsável pela execução direta do pecado, mas sim a causa secundária (o homem), visto que é esta última que diretamente executa o que fora predeterminado. Porém, esse argumento falha na mesma proporção em que um advogado falha ao tentar livrar um suspeito de assassinato culpando a faca pelo crime cometido. Ademais, Deus decretou o pecado de forma livre e “inalterável”, o que torna a ação do homem (a causa secundária) necessária, ou seja, impossível de ser evitada.

Pensem um pouco mais na lógica calvinista. Imagine as conclusões bizarras que podemos derivar do pensamento de Palmer (o texto em destaque é uma adição minha):

Ele predeterminou tudo “segundo o conselho da sua vontade” (Efésios 1:11): o movimento de um dedo, a batida de um coração, o riso de uma menina, o erro de um datilógrafo, cada ação do estuprador durante o abuso de uma menina, a sutura dos seios das mulheres para que não amamentassem seus bebês até que eles morressem de fome (em Auschwitz), a desobediência ao mandamentos divinos, cada ação de tortura contra os cristão perseguidos, os assassinatos, o adultério, etc… [5] 

Essas implicações podem ser agrupadas em uma única categoria: a autoria do mal moral (ou a autoria do pecado). Se tudo é resultado da predeterminação de Deus; se os decretos de Deus abrangem cada detalhe, cada atitude e cada pensamento; e, se nada tem uma origem diferente da ação determinante de Deus; segue-se que a predeterminação também abrange o mal moral (o pecado).

O calvinismo inevitavelmente acaba por fazer de Deus o autor do pecado. Percebam que, ao invés de trazer luz e corroborar com o ensino cristão milenar, o calvinismo joga trevas sobre consenso cristão. O calvinismo coloca dúvidas sobre as afirmações que são tão claras nas escrituras:

Deus é luz e nele não há treva nenhuma [João 1:5-6]. Suas obras são perfeitas e seus caminhos são retos e justos [Dt 32:4]. Deus ama a justiça [Sl 11.7; 1Jo 1.5; Tg 1.17]. Deus não se agrada do pecado [Sl 5.4-6; cf. 7.11; Rm 1.18]. Deus é puro de olhos e não suporta ver o mal [Hc 1:13]. Deus não tenta a ninguém e ninguém pode dizer que ele é autor das tentações [Tg 1:13]. Deus é bom [Mc 10:18]. Sejam santos como Deus é santo [Lv 20.26; 1 Pe 1:15-16]. Deus é amor [1 Jo 4:8].

Na verdade, “Deus mesmo se torna inacreditável se aquilo contra o qual ele lutou com poder, e pelo qual ele sacrificou seu único Filho, foi, todavia, de alguma forma parte integrante do seu conselho eterno”. [6]

Se Deus decretou tudo o que acontece, e o “pecado é um dos eventos ‘quaisquer’ que ‘acontecem’, os quais são todos ‘decretados'” [7], logo, Deus decretou o pecado. E mais do que isso, Armínio objeta que, se o pensamento calvinista estiver correto, então Deus peca; e que, de fato, Ele é o único pecador; e que o pecado deixa de ser pecado, visto que qualquer coisa que Deus faça não pode receber essa denominação; [8]

Há outras conclusões estranhas que podem ser extraídas da lógica calvinista, por exemplo, que o diabo e o homem, ao cometerem pecado, estão na verdade sendo servos obedientes. John Milton afirma que “Existem pessoas… que… afirmam que Deus é a causa e o autor do pecado… Seu eu tentasse refutá-las, seria o mesmo que formular um extenso argumento para provar que Deus não é o diabo”. [9]

É bom lembrar novamente que, embora alguma minoria de calvinistas assuma as implicações de seu sistema (ver aqui), os calvinistas tradicionais alegam não defender que Deus seja o autor do pecado. No entanto, esses últimos falham em explicar como o fato de Deus predeterminar que o homem cometa pecados (de maneira irresistível) não faz dEle o autor do pecado. E mais, como Deus pode causar inalteravelmente a pecado e ainda culpar o homem por executá-lo? Como culpar uma faca pelo crime de assassinato?

Concluímos então que o calvinismo, nesse ponto, prejudica o entendimento claro das escrituras e de forma não desejada destoa do consenso cristão sobre o assunto.

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[1] Michael Horton, A favor do calvinismo, p. 64.

[2] Ibid.

[3] Ibid., p. 65.

[4] Edwin H. Palmer, The Five Points of Calvinism, p. 24-5

[5] O trecho em destaque é acréscimo meu, mas possivelmente Palmer concordaria.

[6] Adrio König, Here Am I! A Believer’s Reflection on God (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), pp. 198–99, citado por Roger Olson em Teologia arminiana: mitos e realidades.

[7] W.G.T. Shedd, Calvinism: Pure and Mixed, p. 32

[8] Armínio, As obras de Armínio, v.1. CPAD, pp. 210-211.

[9] Citado por George Bryson, em “O lado negro do Calvinismo” (São Paulo: Editora Reflexão, 2016), p. 15.